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Casa de Oração relembra martírio de Dom Oscar Romero em encontro

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  • domingo, 29 de março de 2015
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  • Celebração contou com cantos e reflexões sobre a Igreja olhar para os pobres

    Arcebispo de El Salvador foi assassinado pela Ditadura em 1980. Foto: Arthur Gandini/IP

    Por Arthur Gandini

    Religiosos, religiosas e fiéis realizaram celebração pela memória do martírio de Dom Oscar Romero nesta sábado (28), na Casa de Oração do Povo da Rua, em São Paulo.

    O assassinato do arcebispo de San Salvador, por um atirador de elite do governo militar da época, completou 35 anos na última terça-feira (24).

    O martírio em 1980 recebeu manifestações de repúdio pelo mundo e resultou em pressão contra o regime ditatorial de El Salvador.

    “Assume sua missão plena até as últimas consequências, denunciando todo o sistema militar da época e sabendo que estaria no mesmo segmento de Jesus, que é o martírio”, afirmou Liz Marques, participante da comunidade Moisés Libertador, na Região Belém.

    Leia também: Salvadorenhos fazem marcha para relembrar martírio
    Confira mais fotos sobre a celebração pela memória de Dom Romero

    A tarde de lembranças começou por volta das 16h na saída para a Rua São Caetano da estação de metrô Luz.

    Os presentes, vindos das regiões Belém, Brasilândia, Ipiranga e Sé e das dioceses de Presidente Prudente, Piracicaba, São Miguel Paulista e Bragança Paulista, caminharam até a Casa de Oração cantando músicas, assim como na celebração. Assista nos vídeos abaixo.







    O encontro apresentou reflexões como a feita ao Paulistana pela coordenadora da PJ (Pastoral da Juventude) na Arquidiocese de São Paulo, Magali Oliveira. “Mostra que nós não podemos parar de lutar, nem desistir do Reino”, disse.

    Para Magali, o arcebispo é um sinal de resistência para a juventude. “A luta é diária, é no trabalho, nosso dia a dia, na escola, é em tudo”.

    Já o vigário episcopal da Pastoral Povo de Rua, Julio Lancellotti, afirmou no encontro que a lembrança de Dom Oscar Romero deve mexer com todos.

    “É preciso que a memória de Dom Romero seja incômoda, assim como é quando um irmão de rua entra bêbado em uma celebração”, disse ele. Lancellotti também falou sobre o fato de todos estarem reunidos naquele momento.

    “Os irmãos de rua não estão nas grandes catedrais e nas igrejas, mas também não estão em nossas comunidades”, refletiu.

    Para Lancellotti, Romero será mais aceito
    na Igreja. Foto: Arthur Gandini/IP 
    Libertação

    O também pároco da igreja São Miguel Arcanjo, na Região Belém, prosseguiu criticando como a beatificação do arcebispo em maio fará com que ele seja mais aceito em celebrações por pessoas “que gostam das coisas oficiais.”

    “Os que gritam na ladainha, ‘ele não é santo (para ser citado)’, vão ter que engolir agora”, disse. “Os mais reacionários já estão contando história, que ele não era tão ligado à Teologia da Libertação”, criticou.

    Dom Oscar Romero ganhou destaque em sua época por defender uma Igreja voltada aos pobres e anticapitalista. Por isso, foi comparado a figuras como Mahatma Gandhi e a Martin Luther King. Para o vigário, a lembrança mostra que não é possível dialogar com o capitalismo.

    “Dentro desse sistema, tem proposta que não seja derrubar esse sistema de opressão? Vai ter lugar nele para os travetis, os que estão nas ruas, os enlouquecidos?”, perguntou.

    Foi lido ainda na celebração trecho do Evangelho de Mateus (10: 26,33) em que Jesus fala sobre a morte.

    “Não tenham medo deles, pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido.
    O que digo a vocês na escuridão, repitam à luz do dia, e o que vocês escutam em segredo, proclamem sobre os telhados.
    Não tenham medo daqueles matam o corpo, mas não podem matar a alma. Pelo contrário, tenham medo daquele que pode arruinar a alma e o corpo no inferno!
    Não se vendem dois pardais por alguns trocados? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do pai de vocês.
    Quanto a vocês, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pardais. Portanto, todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai que está no céu.
    Aquele, porém, que me renegar diante dos homens, eu também o renegarei diante do meu Pai que está no céu.”

    A música “Pai Nosso dos Mártires” também foi cantada pelos presentes antes da Eucarista. Ouça abaixo.


    Mudança

    Ladainha pediu intercessão de Dom Romero com Deus. Foto: Arthur/Gandini

    Para Liz Marques, que organizou o evento com a Equipe Arquidiocesana de Cebs (Comunidades Eclesiais de Base), a futura beatificação de Romero mostra uma Igreja mais atenta ao mundo, a partir do Papa Francisco.

    “É um pastor que sente também nele as dores que vive a humanidade dentro das ideologias da morte, diante de todo o império do neoliberalismo”, afirma sobre as críticas que o pontífice tem feito às injustiças vindas da política econômica.

    “Trazer Oscar Romero nesse contexto de América Latina como Santo, faz com que essa Igreja seja de fato mais missionária, que tenha mais cuidado com os pobres”, afirmou.

    Para o presidente do Clasp (Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo) e blogueiro do Paulistana, Edson Silva, também presente no evento, é preciso haver mais encontros como o que ocorreu.

    “Uma celebração como esta, organizada e motivada por leigos, principalmente mulheres, cada vez mais vai dando visibilidade que a Igreja pode aproveitar, utilizando do laicato, para esses momentos significativos”, disse Edson sobre o evento onde o pão e vinho foi repartido entre todos sem ser consagrado por um sacerdote.

    Para Silva, "todo momento celebrativo é um momento de se celebrar a fé".

    “Que a gente vá na paz, mas na paz, incomodados”, encerrou Liz Marques, assim, a celebração por Dom Oscar Romero.

    Para ela, o melhor proveito do encontro para todos é ser tocado pelo próximo como foi o futuro santo.

    “Incomodar-se diante das dores do povo, das injustiças, assim como Dom Oscar se sentiu incomodado”, disse a fiel ainda em entrevista ao portal.

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