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Henry Sobel revela que sofreu ameaça antes de ato por Herzog

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  • quarta-feira, 9 de outubro de 2013
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  • Rabino conta que recebeu a visita de três generais antes de celebração ecumênica na Sé em 1975

    Por Arthur Gandini

    O rabino e ex-presidente da Congregação Israelita de São Paulo, Henry Sobel, revelou em clima de descontração na manhã desta terça-feira (08) que foi ameaçado pelo governo militar antes do ato ecumênico em 1975 pelo jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelo regime na semana anterior ao evento.

    A declaração foi dada na comissão da verdade da Câmara Municipal de São Paulo e pode ser assistida no vídeo abaixo.

    O rabino se tornou famoso por ter duvidado da versão de suicídio dada pela Ditadura e por ter pedido para que o jornalista não fosse enterrado na vala dos comuns, destino dos judeus que tiram a própria vida, de acordo com a religião.

    Em seguida, o clero da igreja paulistana se juntou à congregação israelita e realizou o ato suprareligioso em 31 de outubro do mesmo ano. A parte de fora e de dentro da igreja foi tomada por militares. A partir daí, a opinião pública pressionou o governo que acabou por derrubar oficiais responsáveis pela morte de Herzog, diminuiu os casos de tortura e acelerou a abertura democrática do regime.



    O rabino estadunidense ganhou notoriedade por denunciar a morte de Vladimir Herzog, mas perdeu prestígio em 2007 no meio judaico após ser pego furtando gravatas em uma loja da Flórida, EUA. Em agosto deste ano, Sobel admitiu ao jornal O Estado de S. Paulo que o furto das gravatas foi "falha moral" e não problema com remédios, como tinha dito anteriormente.

    Depoimentos 

    Sobel compareceu à comissão para depor sobre o período do Regime Militar junto com o bispo emérito de Blumenau, Dom Angélico Sândalo Bernardino e o padre Júlio Lancellotti. A bancada da comissão foi composta pelos vereadores Juliana Cardoso (PT), Mário Covas Neto (PSDB), Ricardo Young (PPS) e Gilberto Natalini (PV).

    Dom Angélico contou aos presentes que ajudou a abrigar fugitivos políticos da Ditadura em igrejas quando era bispo-auxiliar de São Paulo, como membros da Pastoral Operária eram perseguidos pelo regime e defendeu a liberdade de imprensa. "Posso não concordar com o que você diz, mas tenho que defender o seu direito de o dizer", afirmou utilizando frase atribuída ao filósofo do séc. XIV François Marie Arouet, conhecido como Voltaire.

    O bispo emérito também contou que quando era diretor do jornal Diário de Notícias, foi chamado algumas vezes a depor em São Paulo sobre artigos que escrevia para a publicação.

    Denúncias
    Para o padre Lancellotti, mendigos são hoje enterrados como
    os mortos pela Ditadura. Foto: Arthur Gandini/ Blog SG


    Já o padre Júlio Lancellotti, também vigário episcopal da pastoral Povo de Rua, aproveitou a ocasião para denunciar que moradores de rua são enterrados como indigentes no cemitério Dom Bosco em Perus, SP. "Continua a mesma prática da vala comum da Ditadura". Ele ainda apontou que muitos corpos são enterrados com palha dentro após seus órgãos serem retirados para serem vendidos no mercado ilegal. "Resolver o problema seria uma homenagem as pessoas que foram mortas na Ditadura", afirmou o padre sobre os torturados políticos que tiveram o mesmo destino que os sem teto.

    O deputado estadual e presidente da Comissão da Verdade do estado, Adriano Diogo, presente no evento, citou a polêmica do Instituto de Química da USP ter processado o jornalista Bernardo Kucinski que publicou o livro "A filha desaparecida". A obra fala sobre sua filha Ana Paula Kucinski, desaparecida política que trabalhava no Instituto e até hoje é considerada pelo departamento demitida por "abandono de cargo".

    Os vereadores se comprometeram a cuidar dos casos em atuação junto com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal.

    Lembranças

    Ricardo Yang, como os outros parlamentares, se declarou emocionado com a presença dos três religiosos. Ele contou que namorava uma judia na época do assassinato de Herzog e acompanhou a discussão na casa da companheira sobre o ato de Sobel de não enterrar o jornalista na vala comum. O episódio trouxe a primeira motivação para o então jovem se engajar na política.

    Henry Sobel ainda afirmou que se mudará para os EUA no próximo mês de dezembro, mas que planeja passar pelo menos seis meses por ano no Brasil para fazer companhia a sua filha, Alisha Sobel, que irá se casar com um brasileiro no final do ano e vai permanecer no país.

    Veja outras fotos do evento:

    Convidados esperam pelo começo da sessão. Foto: Arthur Gandini/Blog SG

    Da esquerda para a direita: vereadores Mário Covas Neto (PSDB), Ricardo Yang (PPS), Gilberto Natalini (PV), Henry
    Sobel, Dom Angélico Sândalo Benardino e Padre Júlio Lancellotti. Foto: Arthur Gandini/Blog SG

    Dom Angélico com o chapéu kipá de Henry Sobel após trocarem o símbolo religioso por brincadeira.
    Foto: Arthur Gandini/Blog SG

    Dom Angélico devolve o chapéu kipá para Henry Sobel.
    Foto: Arthur Gandini/Blog SG

    Dom Angélico devolve o kipá. Foto: Arthur Gandini/Blog SG

    Vereador Ricardo Yang (PPS) afirma que ficou emocionado ao ouvir relato de Sobel.
    Foto: Arthur Gandini/Blog SG

    Adriano Diogo (PT) substitui assento da vereadora Juliana Cardoso (PT) que se retirou para reunião da bancada
    do partido na Câmara. Foto: Arthur Gandini/Blog SG