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Igreja, ontem e hoje - Seus Desafios

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  • terça-feira, 31 de março de 2015
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  • Foto: Israel Ministry of Foreign Affairs

    Por Waldemar Rossi*

    O Concílio Vaticano II foi o grande divisor de águas para a Igreja. Inspirado pelos desafios de um mundo envolvido cada vez mais no chamado conflito de classes, presente no mundo capitalista e comunista da época, o papa João XXIII convoca a todos os bispos do Planeta para refletir sobre a dura realidade que marcava a vida de cerca de três bilhões de seres humanos, nos cinco continentes, em especial na América Latina, Ásia e África. Era necessário rever em profundidade a missão evangélica da Igreja para a superação do sofrimento e a crescente miséria que invadia os lares dos pobres, dos trabalhadores explorados pelo moderno sistema de produção.

    Depois de quase três anos de verdadeiro mergulho na realidade mundial, a quase totalidade dos prelados entenderam que a Igreja de Jesus Cristo não poderia permanecer alheia ao fato da crescente marginalização econômica e social que feria de morte grande parcela da Humanidade. Sua deliberação mais importante foi a prioridade da ação voltada para os pobres, os escolhidos de Jesus Cristo. Nada, porém, que não viesse provocar muitos atritos entre os próprios bispos presentes ao Concílio.

    As conclusões desse Concílio teve enorme repercussão na Igreja da América Latina. O encontro de Medelín (Colômbia) revolucionou a vida do cristianismo (não apenas da Igreja Católica) que se definiu pela evangelização dentro da ótica “Ação Preferencial pelos pobres”. Multiplicaram-se as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), foram criadas inúmeras pastorais sociais, como a Pastoral Operária, a Comissão Pastoral da Terra, dos Indígenas, da Pesca e tantas outras que vieram depois. A Igreja se identificava cada vez mais com a realidade e a vida dos operários, dos camponeses, dos indígenas, dos pescadores, dos ribeirinhos, dando-lhes suporte bíblico/evangélico e apoio concreto em suas lutas coletivas visando superar as grandes e crescentes injustiças que vem marcando o nosso continente.

    As Igrejas ecumênicas, por conta dessa renovação espiritual, encontraram forças para fazer frente às ditaduras que se implantaram em vários países latino-americanos a partir de 1964, tomando corajosamente a defesa de presos políticos, condenados á barbárie das torturas e dos assassinatos que mancharam de sangue o nosso continente. Foram anos gloriosos, embora conflituosos, das nossas Igrejas cristãs que se irmanaram em defesa da vida e da dignidade das pessoas. As Igrejas se tornaram na luz que faltava neste mundo em conflito. O cristianismo da época foi respeitado e enaltecido até por antigos “inimigos”.

    Porém, “nem tudo são flores”, e os setores conservadores da Igreja Católica, a partir de João Paulo II, e de seu principal aliado Cardeal Ratzinger, fez um triste retorno internista, omitindo-se das questões sociais e se tornando, mais uma vez, uma Igreja apenas de louvação. Bispos foram nomeados entre padres que não tinham compromisso com as questões sociais, deixando um enorme vácuo em sua presença na vida do povo, presença que é uma exigência da Encarnação do Filho de Deus que deu a sua própria vida pela salvação de toda a Humanidade, mas em especial pelos “pobres, cegos, presos e pelos oprimidos” (Lc. 4, 18-19).

    Eis que o Espírito Santo não nos abandonou e nos preparou um momento de regeneração evangélica. A eleição de um “hermano” argentino, de um país do sul da América do Sul espoliada pelo capital, para ser o novo papa, após a renúncia de Bento XVI - que representava a cultura europeia conservadora – encheu de nova e brilhante luz toda a Igreja dos cinco continentes. Sua cultura jesuíta, sua sensibilidade para com os “descartados” de todo o mundo, aliadas à sua prática pastoral humilde, persistente, eficaz e sem a ostentação tradicional do episcopado, permitiu-lhe ter a ousadia de enfrentar os enormes desafios desta Igreja corrompida em suas estruturas vaticanas. Muito mais importante do que isto é sua coragem e determinação para, ao lado do apelo a que os cristãos não percam a Alegria do Evangelho, que não deixemos que nos roubem essa Alegria e que assumamos corajosamente a missão de sermos a Luz e o sal do Evangelho nos campos da política, da cultura, da economia contribuindo para a transformação das estruturas perversas.

    Entre tantas e belas expressões, papa Francisco nos diz: ”Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Nós não podemos fazer como Pilatos e lavar nossas mãos. Não podemos! A política está muito suja: mas está suja por quê? Porque os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico”. Em sua exortação apostólica ”A alegria do Evangelho” ele foi enfático: “Não a uma economia de exclusão; Não à nova idolatria do dinheiro; Não a um dinheiro que governa ao invés de servir; Não à desigualdade social que gera violência.” (E.G. 50-60).

    Com Francisco, a Igreja começa a renascer das cinzas, para alimentar a esperança da conquista da Justiça, na construção do Reino.

    *É da coordenação da Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo.