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A Igreja no Brasil é institucionalmente fracassada, diz Leonardo Boff

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  • quarta-feira, 29 de abril de 2015
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  • Para o teólogo, em entrevista à TV Brasil, faltam padres e celibato precisa mudar

    Ex-frade também falou sobre a Igreja nos anos 80 e o Papa Francisco. Foto: Reprodução/TV Brasil

    Da Redação

    O teólogo Leonardo Boff afirmou em entrevista televisionada na noite da última terça-feira (28) que a Igreja Católica no Brasil está fracassada.

    "Institucionalmente, é uma igreja fracassada. Funciona com as comunidades eclesiais e os leigos nas pastorais", afirmou sobre a falta de sacerdotes e a perda de fiéis para igrejas protestantes.

    "Espero que esse papa faça duas coisas. Primeiro passo, que os padres casados possam assumir a sua função. Segundo passo, que a obrigatoriedade do celibato acabe", disse sobre os homens que querem servir a Igreja, mas sem largar o matrimônio e deixar de ter uma profissão laica.

    As declarações foram dadas ao programa Espaço Público, da TV Brasil, que foi gravado na última terça-feira (21) e teve como entrevistadores os jornalistas Paulo Moreira Leite, Florestan Fernandes Jr. e Diego Amorim.

    O teólogo, que ficou famoso por ter livro censurado nos anos 80 pelo futuro Papa Bento XVI, cardeal Joseph Ratzinger, falou sobre diversos assuntos como a teologia da libertação, as mudanças na Igreja com o papado de Francisco e as demais igrejas cristãs.

    "Não sou contra os evangélicos e as diversidades das Igrejas. Deus deve se aborrecer com isso", afirmou sobre a Igreja Católica se colocar como a única igreja de verdade.

    Entretanto, Boff critica as chamadas "igrejas de mercado".

    "Falam mais para o bolso das pessoas do que para o coração. São quase patologias. Usam o nome de Deus."

    Para o teólogo, todas as religiões tem problemas e a espiritualidade é mais importante que elas.

    "Religiões fazem guerra. Estão doentes de fundamentalismo e isso atrasa (o mundo). São boas quando se acessam à espiritualidade e tornam a vida mais leve", disse.

    Política

    Boff afirmou que a teologia da libertação é necessária hoje com a crescente desigualdade do capitalismo, mas que não chama mais tanta atenção.

    "Não tem mais a visibilidade que antes, porque não é mais polêmica, mas está produzindo", disse.

    O teólogo ainda comparou o atual momento político do país com o de 1964, às vésperas do Golpe Militar. Entretanto, coloca como diferença se saber hoje que um golpe seria errado. Na época, conta que apoiou a saída de João Goulart assim como o arcebispo de São Paulo fez na época, Dom Paulo Evatisto Arns.

    O teólogo ainda relembra como Dom Paulo foi penalizado ao defendê-lo perante o Vaticano e teve seus bispos auxiliares de São Paulo transferidos, além de perder cargos na Santa Sé.

    O arcebispo de Fortaleza (CE) da época, Dom Aloísio Lorscheider, outro que saiu em defesa do frade franciscano, também perdeu nomeações no Vaticano.

    "Dom Paulo teve séria discussão com Ratzinger. O Vaticano nunca perdoou. Achou deslealdade."

    Boff crítica a interpretação de que a Teologia da Libertação seria comunista. "O cardeal Ratzinger e João Paulo II (o papa da época) nunca entenderam a Teologia da Libertação. Foram na versão dos militares", disse.

    Papa Francisco

    O teólogo Leonardo Boff, apoiador do papado de Francisco, elogia as mudanças promovidas pelo pontífice.

    "Com o Papa Francisco, chegou a primavera depois de um longo e tenebroso inverno. Logo saudei esse Papa como um papa de salvação. A Igreja estava em escândalos, com pedófilos".

    Questionado se Francisco não pode acabar sendo mitificado mesmo quando defende pontos tradicionais da Igreja, como a proibição do casamento gay, o teólogo concordou, mas vê avanços.

    "Introduziu governo colegial. Ele abriu brechas que permitem que a Igreja seja mais flexível. Tirou da categoria doutrinária e colocou na pastoral."

    Boff afirma que Jorge Bergoglio foi um dos percursores da Teologia da Libertação na Argentina, mas com outro nome, uma "teologia do povo", para a escondê-la da Ditadura Militar (1962-1983) do país.

    O teólogo confirma o rumor de que teria enviado por meio do embaixador do Vaticano na Argentina, Emil Paul Tscherrig, material para ajudar Francisco a terminar a encíclica que deve ser publicada agora em junho.

    "Foi dirigida petição a mim pelo embaixador e me disse: 'não envie ao Vaticano, pois não entregam'".

    Também falou sobre a resposta que recebeu do pontífice, quando o chamou de Santidade. “Santidade não, santidade é o Dalai Lala. Eu sou o bispo de Roma.”

    Temas polêmicos

    Leonardo Boff se colocou contra a redução da maioridade penal no programa. "Não resolve problema. Se rebaixarmos, os entregamos ao pior lugar para formar bandidos."

    Também falou sobre a mentalidade da Igreja Católica no Brasil durante o período da escravidão com os negros. “Quem tem sangue sujo, não pode ser padre, porque não vai observar o celibato”.

    O teólogo se colocou contra o aborto, mas questionou a ideia que temos de vida. "Nós não sabemos. É algo sagrado que eu respeito. Por outro lado, entendo mulheres que não sabem como sustentar o filho e abortam."

    Boff também afirmou que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) é uma das mais bem vistas no mundo por seu trabalho social.

    "É bom que tenha um presidente que saiba equilibrar, permita uma flexibilidade", disse em relação às correntes teológicas dentro dela. "Ela pesa na formação da opinião pública."

    Governo

    Boff disse que não é petista e que apoia apenas a causa do PT, em meio aos casos de corrupção.

    "Defendo a causa dos pobres, permitir que as pessoas tenham luz em casa, o mínimo para que os humildes pudessem ter acesso a questões fundamentais. Não significa que eu não possa criticar o PT."

    Para ele, o partido, que fez distribuição de riquezas no país, deveria ter feito uma redistribuição também. "Pegar de quem tem mais, de quem leva dinheiro para a Suíça."

    Ele também critica o partidarismo da Justiça com os casos de corrupção. "(O juiz federal Sério Moro) está vazando só do PT. Estão fazendo bullyng com o PT. Tudo é culpa da Dilma."

    Boff ainda conta como mantém sua fé após ter largado a batina. "Plantei três árvores em frente à minha casa. Uma para o Pai, outra para o Filho e outra para o Espírito. Quando passo entre elas, vem aquela energia".

    Ele também conta que realiza casamentos e batizados, quando lhe é pedido.

    Relembre

    O teólogo é um dos percursores da chamada Teologia da Libertação, que se opõe à desigualdade proporcionada pelo sistema capitalista e que defende uma Igreja voltada para os pobres.

    Seu livro "Igreja: Carisma e Poder", publicado nos anos 80, fez críticas como o excesso de poder do clero e a maior preocupação com os pecados da doutrina do que com os morais.

    O então membro da OFM (Ordem dos Frades Menores) acabou sendo condenado a um "silêncio obsequioso" pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Inquisição), Joseph Ratzinger, o futuro Papa Bento XVI.

    O frade resolveu, logo em seguida, deixar a vida consagrada antes de uma nova sanção e se dedica hoje a escrever livros sobre teologia e ecologia e a dar palestras.