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A intolerância contra o clero brasileiro

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  • segunda-feira, 27 de abril de 2015
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  • Foto: Reprodução/Facebook

    O Brasil está tomado, desde o começo do ano, por onda de intolerância em relação às opiniões políticas no país. Pessoas nas ruas e nas redes sociais, dentro da lógica de uma Guerra Fria que parece não ter acabado para elas, gritam e fazem acusações de "comunista" a qualquer pessoa que tome um posicionamento ligado aos pobres ou contrário à manutenção de privilégios de pequena parcela da sociedade. Essa intolerância, agora, parece ter chegado de vez ao ambiente da Igreja.
    A acusação de apoio ao comunismo, considerado anticristão pelo Vaticano, não é nenhuma novidade. "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista", dizia o ex-arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara. Entretanto, conhecido como "bispo vermelho", Dom Hélder ao menos possuía inclinações políticas progressistas, como o apoio à teologia da libertação, que pudessem o aproximar do ideário e justificar a acusação política.
    Os ataques que o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, tem sofrido nas redes sociais mostram uma mistura de ódio e ignorância no clima político brasileiro que tem agora se confrontado não mais somente com o governo, mas também com o clero católico do país devido a um suposto alinhamento entre as duas partes.
    Dom Odilo é conhecido como conservador nos bastidores eclesiais e está longe de ser um bispo comunista. Criticou a teologia da libertação, corrente teológica mais à esquerda dentro da Igreja, logo após assumir a administração da Arquidiocese de São Paulo em 2007. No começo do ano passado, sofreu protestos de fiéis devido à transferência de padres na Região Ipiranga e teve a sua figura oposta à de Papa Francisco, este que tem dado declarações anticapitalistas e, sim, poderia ao menos dar margem a uma acusação de apoio ao comunismo, mesmo já duas décadas após o desmantelamento da União Soviética.
    A questão, entretanto, não consiste nas preferências políticas de cada um e, sim, em como cada uma delas é tratada, sob o ponto de vista do olhar cristão. Como disse o teólogo Paulo Suess em entrevista ao Paulistana no começo do mês, "precisamos aprender a aceitar essa diversidade na Igreja".
    A intolerância parece não haver limites quando uma pessoa pública como Olavo de Carvalho chama um arcebispo de "mentiroso" e "excomungado" nas redes sociais e estimula fiéis a fazerem "panelaços" contra ele e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) devido ao apoio a uma reforma política no país, também defendida pelo governo. Fiéis também parecem ficar longe do princípio de respeitar o próximo quando publicam mensagens continuamente na página do Facebook de Dom Odilo Scherer com a afirmação de que ele está excomungado por apoiar reforma política "comunista". A rádio online Radio Vox, por sua vez, completa a pressão contra o apoio à reforma ao fazer ligações ao vivo à mitra arquidiocesana e expor os nomes dos assessores de imprensa do arcebispo e da CNBB por meio de ironias e com as tão frequentes acusações de apoio ao comunismo. “É anti-cristão, porra!", disse um dos apresentadores da rádio na última sexta-feira (27) sobre o governo do PT, uma demonstração da certeza que todos estes cristãos parecem ter na realidade do caráter comunista de todos que acusam e de que eles estão, como cristãos, atuando da maneira correta. O site da rádio ainda possui Olavo de Carvalho como colunista, que também expôs em sua rede social a imagem da assessoria de imprensa do arcebispo de São Paulo.
    A CNBB e Dom Odilo Scherer apoiam apenas uma reforma política que possa acabar com o financiamento privado a campanhas eleitorais por parte de empresas como as envolvidas na corrupção descoberta pela Operação Lava Jato. O posicionamento, que é compreensível, tem sofrido oposição extrema que demonstra uma oposição, em geral, a qualquer possibilidade de diminuição do poder econômico na sociedade.
    O Paulistana, diante deste cenário, coloca-se contra qualquer demonstração de ódio e intolerância e de desrespeito.
    Não existe cristianismo sem amor e a constatação é necessária a todos que dizem seguir a Igreja de Jesus Cristo.