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As declarações anticapitalistas do Papa Francisco

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  • segunda-feira, 20 de abril de 2015
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  • Foto: MorgueFile

    "Papa critica escravidão em 'sistema global dominado pelo lucro'", "Vocação cristã deve ser a favor da libertação dos pobres, diz Papa", "Riquezas devem ser usadas para servir ao próximo, diz Papa", "Papa diz que evangelizar não é fazer 'publicidade' para ter 'sócios'", "Papa diz que pobres recolhem 'as migalhas das mesas dos ricos'", "Papa diz que crianças denunciam sistema construído pelo homem" e "Papa fala em 'repouso dos pobres' e da 'sociedade de consumo'". Estas são apenas declarações feitas pelo comandante da Igreja Católica Romana deste o começo do abril. Elas mostram que Francisco definitivamente não está na lista das pessoas mais satisfeitas com o sistema econômico capitalista e as desigualdades que ele promove. Entretanto, é preciso perceber isso ao invés de escondê-lo.
    A preocupação do Papa com os mais pobres e os mais excluídos da sociedade não é nova. A própria confirmação logo depois da eleição de Jorge Bergoglio de que a escolha do nome "Francisco" era uma referência a São Francisco de Assis já demonstrou a sua preocupação com os mais marginalizados. A sua primeira exortação apostólica em novembro de 2013, no final do primeiro ano de papado, também mostrava que Francisco entende do funcionamento da economia e sabe muito bem de onde se originam as suas preocupações.
    "Alguns defendem ainda as teorias da 'recaída favorável', que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar", disse o pontífice no ponto 54 do documento oficial "Alegria do Evangelho", em referências a cortes governamentais de gastos como os que levaram a Europa ao desemprego e a fome após a crise de 2008 e como o que vem agora sendo implementado no Brasil, sempre protegendo os interesses dos bancos e de outras corporações.
    Isto não significa que o papa seja "comunista", a favor de um comunismo ateu, como o que resultou em um país como a China, que mesmo dominado por um capitalismo de Estado, conserva ditadura e persegue o próprio clero católico romano e os leigos da Igreja. "Comunistas roubaram a nossa bandeira" e "meu partido é o Evangelho", já disse o papa a jornalistas em tom de brincadeira. O posicionamento de Francisco significa que ele segue o caráter libertador e a opção pelos mais pobres de Jesus no Evangelho. "Não sei se dá pra dizer que o papa é 'mais à esquerda' mas, sem dúvida, é um dos mais progressistas que a Igreja já viu, o que não é muito difícil, como dá pra imaginar", disse o criador da página no Facebook "Camarada Chico" ao Paulistana, em entrevista ainda não publicada.
    Contudo, a posição clara do pontífice romano nem sempre chega a todos os fiéis da Igreja. "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa", disse também Francisco no ponto 53 de sua exortação.
    A mídia, que apoia e defende o poder econômico, não tem dado destaque as falas antissistema do Bispo de Roma. Das sete declarações mencionadas no começo deste editorial, apenas duas são mencionadas em pelo menos um veículo da grande imprensa ("riquezas são para o serviço" e "sistema que nós construirmos").
    A primeira foi publicada apenas na Veja Online, paradoxalmente, o mesmo site que abriga um exemplo de jornalista que nega o caráter anticapitalista de Papa Francisco. "Exortação Apostólica não é carta de reforma coisa alguma; crítica da Igreja ao materialismo é antiga", minimizou Reinaldo Azevedo em seu blog após a publicação do documento, na época. De fato, a Igreja Romana já no século XVI condenava o lucro, posição deixada de lado com a consolidação do capitalismo após a burguesia da época apoiar a Reforma Protestante, interessada no sistema econômico que surgia para substituir os feudos. A chamada "Teologia da Prosperidade", idealizada no berço da reforma, defende que a benção financeira é um desejo de Deus, dentro do contexto da ética capitalista, e é levada a cabo, até hoje, pelas igrejas evangélicas neopentecostais, mas também em redutos carismáticos católicos.
    Entretanto, não é possível negar o simbolismo, a força e a frequência inédita das declarações contrárias ao sistema por parte de um pontífice romano. Azevedo, que defende uma política econômica ortodoxa - mais conhecida como neoliberal - tem criticado o papa por dar declarações supostamente populistas, a exemplo de outros jornalistas. A crítica pode servir como uma cortina de fumaça ao verdadeiro motivo para se fazer oposição ao papa.
    É preciso ter consciência dos interesses que envolvem e circundam o posicionamento de Francisco. Todos que sustentam um sistema bom para os poucos, e que segrega a maioria, irão se colocar contra o pontífice.
    Papa Francisco, acolhedor com seu modelo de pastoral, é popular e isto torna difícil atacá-lo de forma direta. Esconder seus posicionamento e criticar outros de seus aspectos são alternativas.
    Também é preciso nunca se deixar ser enganado e esquecer que a defesa dos pobres feita por Francisco, e por tantos outros, é um espelho de nosso Deus, Jesus Cristo.