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É um dos mais progressistas da Igreja, diz autor de “Camarada Chico”

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  • quinta-feira, 30 de abril de 2015
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  • Portal conversou com o dono da página que mostra lado "anticapitalista" do papa

    Para o administrador, Francisco tem sido progressista na economia e nos costumes. Foto: Reprodução

    Por Arthur Gandini

    Uma página surgida no Facebook em novembro do ano passado tem chamado a atenção por mostrar um pontífice romano fora do comum para a história dos papas, mas não para o pontífice atual.

    Com mais de 1.500 curtidas até esta quinta-feira (30), o espaço publica charges como Francisco usando uma camiseta do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) ou do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), este último que se reuniu com Francisco em outubro do ano passado em evento do Vaticano com movimentos populares.

    “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”, disse o papa na ocasião.

    A fala foi apenas uma das declarações que Francisco tem dado desde o começo do seu pontificado e que são compartilhadas pela página "Camarada Chico", que trata o bispo de Roma com apelido informal e com o pronome de tratamento utilizado em partidos de esquerda.

    Com o objetivo de "publicizar o caráter anticapitalista do Papa Francisco", como a página se apresenta, seu administrador tem tentado mostrar um dos papas "mais progressistas que a Igreja já viu".

    Advogado, de 26 anos, casado, "completamente apaixonado pela vida e um completo fã da figura histórica de Jesus Cristo", o dono da página conversou com o Paulistana no último mês, via Facebook, e falou sobre como analisa o papado de Francisco, sem revelar a sua identidade.

    "Francisco surge como um revolucionário, um ferrenho crítico do capitalismo, um defensor intransigente dos pobres e um grande inimigo da pobreza."

    Confira a entrevista abaixo.

    ***

    Paulistana: Quais são essas questões (pelas quais não revela a sua identidade)?

    Administrador: Sou católico praticante. Amo minha fé e questiono minha Igreja, amando-a. Assim como Cristo o fizera.

    Sou socialista. Tenho nessa meta de sociedade a convicção de que só assim com esse horizonte é possível construir uma sociedade mais igualitária e fraterna. Sendo cristão e socialista, imagine só a chatice de ser cobrado dos dois "lados" (embora eu ache que ambas as filosofias se encontram nos pontos fundamentais).

    Você é o único responsável pela página? Prefere não se revelar por causa de sua opção política?

    Sou o único responsável. Um outro amigo ia me ajudar, mas não tem conseguido conciliar com as tarefas pessoais. Prefiro não revelar pra manter o foco no conteúdo da página.

    A Igreja Católica hoje condena o socialismo em documentos e declarações. Como você vê o posicionamento dela?

    A Igreja é uma instituição complexa demais para se resumir em um documento (ou em uns documentos). O que a Igreja condena, com certa razão, é a experiência socialista e autoritária do século XX. Quero dizer, a mesma Igreja que condena o socialismo é a que, hoje, condena o capitalismo (economia liberal). Com todas as letras, recomendo muitíssimo a leitura da Exortação Apostólica Evangelii gaudium, onde o Papa Francisco condena incisivamente o livre mercado (fundamento base do sistema capitalista), o reinado do dinheiro, a especulação financeira... Tudo isso explicitamente.

    A história de Cristo é a história da luta incansável contra as injustiças e pela igualdade fraterna e material, sem divisões de classes sociais e livre da opressão do homem pelo homem (ver Atos dos Apóstolos). Tudo com a utópica projeção de uma sociedade baseada no amor. Ora, o que é isso senão uma projeção da teoria socialista?

    O Papa Francisco assume hoje um posicionamento mais progressista em relação à economia do que João Paulo II e Bento XVI. Essa contradição entre posicionamentos não acontece devido às mudanças de papado?

    Não só na economia, mas também nos costumes. Explico: apesar do Papa Francisco ter sido, quando era cardeal, ferrenho opositor do casamento igualitário na Argentina, enquanto Papa ele recebe travestis no Vaticano com o amor tipicamente cristão, sem nenhum tipo de cobrança. Evidente que isso não é nada, receber alguém com cordialidade deveria ser algo natural. Mas, se pensarmos que se trata de uma instituição extremamente conservadora como a Igreja Católica, um papa ter um gesto desses é um milagre adorável. Não é a toa que há conservadores estadunidenses o chamando de comunista.

    Também, na exortação apostólica, o Papa Francisco deu uma declaração muito progressista para o cargo que ocupa: disse o seguinte sobre as mulheres que se escolhem abortar: "Quem pode deixar de compreender estas situações de tamanho sofrimento?" O amor do Papa Francisco está confundindo e irritando os ultraconservadores.

    Essa é a intenção da página "Camarada Chico", mostrar um pontífice mais à esquerda? Ou é mais uma brincadeira?

    Não sei se dá pra dizer que o papa é "mais à esquerda" mas, sem dúvida, é um dos mais progressistas que a Igreja já viu (o que não é muito difícil, como dá pra imaginar).

    O cara se reuniu com movimentos sociais de esquerda do mundo inteiro - inclusive o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) - com o presidente progressista Evo Morales, instigou os movimentos a lutarem sem trégua, relativizou a condenação à homossexualidade (o que é muito para um papa), condenou veementemente o modelo capitalista... Enfim, eu poderia passar a noite escrevendo similares aqui.

    Em suma, o objetivo da página é catalogar esse momento histórico: um papa que é acusado pelos conservadores de ser "comunista".

    A página, então, tem fins políticos? Como é a recepção dos internautas?

    Claro que tem fins políticos! O que não tem fins políticos, afinal? Estranho seria se tivesse fins econômicos. Veja, não perceba "política" como o pior conceito da palavra, interprete-a com a generosidade da gênese da política: o cuidado com o outro, com a polis.

    Os "fins políticos" são, basicamente, trazer os crentes e não crentes a uma reflexão sobre o papel da Igreja como possível protagonista de uma mudança estrutural no mundo, assim como Cristo fora um dia.

    A recepção é geralmente boa, geralmente de pessoas entusiasmadas com o papa e que viram nele a possibilidade de ser ativo na busca - em alguma medida qualquer - de um mundo pautado no amor fraterno e na solidariedade entre os seres.

    O Papa tem um quê de Teologia da Libertação. E esse discurso empolga pelo poder real de transformação que carrega.

    Mas ele já afirmou em declarações que a Teologia da Libertação teve a sua importância, mas não seria mais atual. Como alguém que analisa os posicionamentos do Papa, onde você situaria "Chico" no espectro ideológico?

    O Papa já deu muitas declarações. Algumas protocolares, outra opinativas... Nesse sentido, o que devemos analisar são suas ações: como diria um filósofo barbudo do século XIX (Karl Marx), "a prática é o critério da verdade".

    Tomando essa premissa como verdadeira, vamos perceber algumas atitudes do papa que, digamos, no mínimo, são simpáticas aos preceitos mais profundos da Teologia da Libertação: reunião com movimentos sociais do mundo inteiro; incisivos discursos pela superação da pobreza; clamor pela reforma agrária e urbana; condenação feroz contra o capitalismo em suas formas mais vis como a especulação financeira, o modelo econômico liberal o estado mínimo; exortou sobre a necessidade de superarmos o capitalismo como modelo de vida etc. Tudo isso parte de premissas importantes tanto do Evangelho, quanto da Teologia da Libertação (eu ousaria dizer que tem muito em comum com o marxismo também). Para entender melhor tudo isso, é fundamental a leitura da Exortação Apostólica Evangelii gaudium.

    Aliás, falando em exortação, também é sintomático que o Papa Francisco tenha consultado Leonardo Boff para ajudá-lo a escrever uma de suas encíclicas, além de ter aprovado a beatificação do maior nome da Teologia da Libertação de todos os tempos, o arcebispo salvadorenho Óscar Romero.

    Papa Francisco defendeu aberta e incisivamente que o financiamento empresarial de campanhas eleitorais seja abolido completamente. Ora, essa é uma das principais bandeiras das esquerdas de todo o mundo e, principalmente, nesse momento histórico, das esquerdas brasileiras. Enfim, eu poderia escrever muito sobre as posições do papa que coincidem com as pautas progressistas...

    Agora, sobre a posição do papa no espectro ideológico... essa pergunta é difícil de responder. O cardeal Bergoglio, na Argentina, foi um ferrenho e desumano opositor do casamento igualitário, por exemplo. Pesam sobre ele suspeitas de envolvimento com a ditadura sanguinária que assolou a Argentina... Um passado questionável. Mas o fato é que, como papa, como líder de uma das instituições mais conservadoras do planeta, e considerando todos (quase todos) os papas que o antecederam, Francisco surge como um revolucionário, um ferrenho crítico do capitalismo, um defensor intransigente dos pobres e um grande inimigo da pobreza. Tanto é verdade que grupos ortodoxos de dentro da Igreja tem se rebelado contra ele de maneira fervorosa.

    O blogueiro conservador da Veja, Reinaldo Azevedo, desde o início do papado reagia a essas posições afirmando ser algo normal e que os adeptos da "escatologia" da libertação estariam se iludindo, pois Francisco estaria apenas reafirma posições antigas da Igreja. 
    Recentemente, o jornalista começou a criticar o Papa não por suas posições políticas, mas por dar declarações ambíguas e uma suposta falta de capacidade teológica. O que você acha disso?

    Azevedo é só mais um que se acha iluminado, que acha que os outros são "iludidos". Obviamente, tentou capitular até o papa, provavelmente imaginando que não seria possível que um papa tivesse nenhum tipo de movimentação progressista. Pois teve. E muitas. Todas úteis às lutas cotidianas do povo trabalhador. E, se aquele blogueiro está incomodado, é um bom sinal de que Chico está mesmo fazendo algo de significativo.

    Já, já, Azevedo se juntará aos ortodoxos que negam a autoridade de Francisco, chamando-o de herege comunista (risos).

    Você acredita em uma crescente oposição ao Papa por parte da imprensa?

    Não. Digo, não necessariamente. Por certo, parte da imprensa pega no pé. Mas a oposição mais pesada (e mais relevante) é de dentro da própria Igreja, inclusive do seu núcleo duro. Dá uma olhada na última postagem da página.

    A notícia sobre Dom Richard?

    Isso mesmo. Assim como ele, há outros movimentos de oposição ao papado de Francisco por mera pirraça ideológica. Com uma rápida pesquisa no Google é possível ver outros grupos importantes que fazem esse tipo de oposição.

    Isso tende a crescer? Como você enxerga também a oposição ao Papa na cúria?

    Não sei se tende a crescer, mas esses grupelhos tendem a ficar radicais nessa oposição, mas é difícil dizer se eles irão crescer em tamanho e/ou importância. Na cúria, também há uma forte resistência ao Papa, e isso tem sido veiculado nas mídias.

    Gostaria de dizer mais alguma coisa que eu não tenha perguntado?

    Gostaria de dizer que a esquerda católica vive e resiste, as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) seguem precárias, mas vivas! E que a história de Jesus de Nazaré - aquele bandido, pobre e subversivo, condenado à pena de morte - depõe ao nosso favor.

    O que nos move é o amor e a solidariedade.

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