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Evangelho da Carne, ou Ressurreição: nossa dignidade está no Corpo

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  • quinta-feira, 9 de abril de 2015
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  • Foto: MorgueFile
    Por Fran Alavina*

    Não resta dúvida, no âmbito da cultura ocidental, que o cristianismo é a religião do corpo. Seja negando, relativizando ou exaltando, os cristãos fazem do corpo o objeto central de seu discurso. Do princípio ao fim da narrativa cristológica, nos mistérios que a religião cristã diz proclamar está o corpo: do nascimento à ressurreição, pois se vai do “verbo que se fez carne” ao “corpo glorioso”.

    O Deus encarnado do cristianismo jamais se reduz ao puro espírito, do contrário não seria mais que uma abstração, uma ideia vazia, imaginação amorfa. Longe disso, os primeiros cristãos, cujo testemunho mais imediato legaram-nos as narrativas evangélicas, proclamaram obstinadamente que: “(...) virão a glória de Deus”, (Jo, 1, 14). Todavia, só viram tal glória porque o “verbo se fez carne”, (Jo, 1, 14). Ora, toda visibilidade pressupõe um corpo. O prólogo de João aponta que a manifestação de Deus só se realiza no fazer-se carne. A consequência destas afirmativas não pode ser outra: o corpo é a condição de possibilidade do sagrado. Logo, o núcleo central da mensagem cristã ser o corpo. O cristianismo funda-se no corpo e não se constituiria como tal se não fosse um discurso religioso sobre o corpo. A complexidade do cristianismo reproduz o enigma em que se transforma o corpo. Não seria justamente por se constituir como discurso sobre o corpo, que o cristianismo conseguiu alcançar os mais diversos âmbitos?

    Ora, olvidando está problema não menos importante, o fato é que a experiência do cristianismo em suas origens está marcada por uma concepção singular do lugar do corpo no mundo. Para aqueles primeiros seguidores do Galileu, eles estiveram na presença de Deus, não porque estavam em oração nos templos, isto é, fora da vida doméstica comum, em um lugar e em um registro de tempo extraordinários. Estiveram na presença de Deus no registro comum do tempo e do espaço, na espontaneidade da vida cotidiana, ou seja, no âmbito ordinário, e não naquele extraordinário. O que há de mais ordinário e comum do que o corpo? Somos todos corpos. Desse modo, pode-se afirmar que a primeira igualdade experimentada pelos cristãos, lugar original no qual se gesta um discurso igualitário mais amplo, é a igualdade dos corpos. Todos somos corpos e no cristianismo Deus também é tão corpo quanto nós. Poderia haver Deus mais próximo do que este que é um corpo? Assim, aqueles que eram os últimos de seu mundo puderam sentir o cheiro de Deus, ouvir sua voz, tocá-lo, comer e beber com ele. Estiveram com Deus, não porque haviam se transformado em espíritos, almas puras, seres desencarnados, porém porque estavam todos no mesmo nível: o do corpo; homem corpo, Deus corpo. Esta primeira experiência do cristianismo nascente impõe um paradoxo: se é mais espiritual, somente na medida em que se afirma o corpo em sua integralidade. Quanto mais corporal, mais espiritual. Mas de que corpo fala a experiência do cristianismo das origens?

    Não se tratava de um corpo classista asséptico (como o dos nobres ricos e daqueles que frequentavam as cortes), nem de um corpo tratado como matéria impura, alvo das mais detalhadas prescrições ritualísticas (como o dos fariseus), mas sim corpo de povo, corpo de povo pobre. Corpo que por ser corpo de povo pobre tem sua dignidade reduzida, pois forçado à cruel luta pela sobrevivência, sem direito ao lazer. Isto é, corpo ao qual é negado o descanso. É o corpo dos que não são mais que seus próprios corpos. É o corpo cansado dos que trabalham e não podem usufruir dos frutos do esforço de seus próprios corpos. É o corpo subnutrido, odorante, corpo que não é objeto de assepsia, nem de rituais de pureza, já que é considerado sempre aquém de um corpo digno. O corpo do povo pobre é corpo na sua espontaneidade mais imediata, é corpo que tem sede e fome: em suma, é o corpo das vicissitudes. É o corpo impuro e abjeto da mulher adúltera, alvo de apedrejamento; é o corpo dos coxos, que por serem considerados corpos defeituosos devem ser fadados à exclusão; é o corpo dos cegos, rebaixado a corpo sem luz, sem direção; isto é, rebaixado a corpo sem autonomia. É o corpo dos leprosos, desfeitos em sua dignidade por possuírem uma carne feia, fedorenta. Ora, o corpo de Jesus é tão corpo quanto o destes. Por isso, o Deus cristão é o Deus sofredor, o Deus que perece e morre simplesmente porque é um corpo. Tudo se dá pelo corpo e no corpo. Todo acontecer supõe uma disposição corporal, se não há corpo, nada há. Pois, o corpo é sempre um dar-se, dar-se no/ao mundo, dar-se aos seus, dar-se a quem se quer dar. Quem entrega com gratuidade o próprio corpo, não oferece somente um corpo, mas se oferece por inteiro: “isto é o meu corpo”, (Mc, 14, 22).

    Sem sua singular concepção de corpo, o cristianismo nada mais é que uma abstração, uma religião amorfa, que por alienar o lugar central do corpo em suas origens, torna-se o discurso que demoniza o corpo e o submete ao império do espírito. Mas, nesta atitude está o esquecimento do paradoxo original: se é mais espiritual, somente na medida em que se afirma o corpo em sua integralidade. Quem nega seu próprio corpo, sua condição corporal, não nega apenas a si mesmo, mas nega o próprio Deus que também é corpo. Nisto reside o núcleo da escatologia cristã. Jesus faz de si mesmo um corpo sofredor, independentemente de tempo e lugar. Todo corpo sofredor é o corpo do próprio Cristo, pois em um corpo que sofre, está o sofrer de todo corpo. (Mt, 25, 31-46), “(...) tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, eu era estrangeiro e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; doente, e me visitastes; na prisão e vistes a mim”. Corpo esfomeado, corpo sedento, corpo estranho, corpo abandonado ao relento, corpo enfermo, corpo cativo. A mensagem é muito clara: não é por meio de obras “espirituais”, mais por meio das obras “corporais” que se decide o mistério da salvação final. Não o que se faz ao espírito, mas o que se faz ao corpo: aí reside o núcleo da boa nova. O reino de Deus não é o reino dos espíritos puros, mas o reino no qual as necessidades dos corpos são satisfeitas. O lugar onde não há mais corpos sofredores.

    Justamente na incompreensão da mensagem da igualdade e integralidade dos corpos, gesta-se o destino final do corpo do Cristo. O crucifixo é antes de qualquer coisa um corpo que agoniza. Corpo de carne dilacerada. Um corpo que se tornou abjeto, que se tornou imagem do escárnio. No corpo do crucificado há uma identificação total, pois ali está um corpo imerso na vicissitude ao qual todo corpo está exposto.

    Qualquer corpo pode ser carne dilacerada, pode-se tornar abjeto: simplesmente porque é corpo. Todos os corpos partilham a mesma condição, assim estão expostos aos mesmos escárnios. O corpo do crucificado é o corpo que incomoda, por isso deve ser calado à força. Um corpo que deve ser morto para deixar de ser corpo. Corpo de povo pobre que ousou ser mais que a carne da sobrevivência. No mundo da imposição da regulação dos corpos, para todo corpo ousado não resta outro destino, senão: o escárnio, a abjeção e a morte violenta.

    Porém, o cristianismo foi além de uma mensagem igualitária dos corpos. O corpo ousado do Cristo ousou uma vez mais. Ousou afirmar a supremacia do corpo sobre tudo, até mesmo sobre a morte, pois o que é a ressurreição senão a vitória do corpo e da carne? (Lc, 24, 39-41), “Olhai as minhas mãos e os meus pés: Sou eu mesmo. Tocai-me, olhai: um espírito não tem carne, nem ossos como vós vedes que eu tenho”. O corpo ousado que havia sido dilacerado, o corpo da carne rasgada, retorna. A identidade do Cristo está no seu corpo: “olhai as minhas mãos e os meus pés: Sou eu mesmo”. Ele não é nada além que seu próprio corpo, e como corpo volta aos seus. Não poderia ser diferente, o corpo não é só o lugar da sensibilidade, mas também o âmbito da afetividade. O afeto entre Jesus e os seus, é antes de qualquer coisa uma afeto corporal: “tocai, olhai”. Ele quase que está a implorar, como se dissesse: sintam-me, pois sou um corpo, não um espírito ou uma lembrança vaga de suas mentes. Esta experiência é a experiência do encontro dos corpos. Dos corpos que se encontraram e sofrem as mesmas vicissitudes. No carne do corpo se imprimem as memórias como marcas do tempo, do tempo do afeto e do desafeto.

    Afeto sem corpo é afeto amorfo. A forma do afeto se dá no corpo, pela convivência comum dos corpos. Assim, a experiência da crucificação não foi apenas a experiência do corpo sofredor, mas a experiência da perda do objeto de afeto, que pode resultar no esquecimento do afeto. Desse modo, é necessário voltar para o corpo, pois do contrário corre-se o risco da perda total da afetividade, outrora mantida pela convivência comum dos corpos. É a necessidade do corpo, como lugar genético da afetividade, que faz com a mulher marcada pelo trauma da perda do corpo do amado, vá ao sepulcro. Seu afeto não se desfaz do corpo, por isso é preciso envolver o corpo do amado em carinho, cuidados e perfumes, (Jo 20, 1-3). No sepulcro, paradoxalmente o lugar reservado ao desaparecimento do corpo, se dá a experiência da ressurreição, isto é, o encontro dos corpos marcados pela afetividade comum. Ela encontra-se não com um corpo morto, mas com um corpo vivo. O corpo ousado do Cristo é insurgente. Como todo corpo, ele não cabe na regulação, na imposição. À imposição do escárnio e da abjeção, o corpo responde com a vida. Não resta alternativa: ser mais corpo, pois só se pode ser mais que corpo, quando se é corpo integralmente.

    Por conseguinte, nestes tempos em que o corpo é objeto de preocupação quase patológica, onde tudo parece se reduzir ao corporal, é preciso reler o anúncio evangélico, fruto da experiência da ressurreição, pela perspectiva do corpo. A boa-nova deve ser lida como narrativa da carne, como discurso que se centra nos corpos e não como mensagem que se dirige ao “espírito”. Abre-se assim uma perspectiva libertadora, que não impõe aos corpos o império do espírito, não padroniza o uso dos prazeres, que não regula os corpos considerados dissidentes, pois a mensagem de vida plena não se realiza sem que o corpo seja livre. Corpos que se dão livremente na afetividade cotidiana, como na experiência do cristianismo das origens. Aí reside o futuro da mensagem cristã, pois afinal, o que fizeram ao ousado corpo de Cristo, também não se faz aos corpos ousados de hoje?

    *É pesquisador, estudante de Pós-Graduação em Filosofia e membro do Movimento por uma Formação Cristã Libertadora, de Fortaleza. Atualmente vive em São Paulo.
    Contato: ffilosofia@hotmail.com