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Não acredito que o Papa é populista, diz teólogo Paulo Suess

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  • terça-feira, 7 de abril de 2015
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  • Em entrevista ao Paulistana, sacerdote diz que Francisco é limitado pela Cúria

    Para Suess, "inimigos" já discutem a sucessão do pontífice. Foto: Lourdes Ribeiro/IP

    Por Arthur Gandini

    Quem costuma frequentar algumas missas na paróquia Santa Rita de Cássia, na Região Ipiranga, pode talvez imaginar que Paulo Suess, 77, é apenas mais um sacerdote simpático, que conversa sorridente com os fiéis e ministra a Eucaristia.

    O padre, entretanto, também é autor de diversos livros teológicos, doutor em Teologia Fundamental e professor da pós-graduação do Itesp (Instituto Teológico de São Paulo). Suas preocupações são voltadas para os problemas indígenas.

    Nascido longe do Brasil, na Alemanha, viajou aos 25 anos como missionário para cá, onde hoje é assessor teológico do Cimi (Conselho Indigenista Missionário).

    A corrente teológica que segue, a Ameríndia, busca trazer também a opressão ao povo indígena para o centro das preocupações da Teologia da Libertação.

    Suess visitou o Papa Francisco no ano passado e possui suas próprias impressões sobre o pontífice latino-americano. Para ele, Bergoglio não é populista, como já foi acusado. “O populista faz promessas e ele não faz promessas, ele dá sinais que às vezes são mais fortes que os próprios atos.”

    O teólogo conversou com o Paulistana na semana passada logo após celebrar missa de Domingo de Ramos. Confira a entrevista a seguir.

    Paulistana: Você se encontrou com o Papa Francisco no Vaticano. Que impressões teve dele?

    Suess: Eu tive esta impressão que é alguém enviado por Deus para colocar a Igreja novamente no chão concreto, no chão do sofrimento das pessoas, na vida concreta das periferias. Ele questiona esse lugar onde ele está, que é a última corte, a Cúria. Ele já desceu do Palácio Apostólico para a Casa Santa Marta. Não é considerado um grande teólogo, mas eu creio que o místico é às vezes mais profundo que muitos teólogos.

    É um Papa que veio das Américas como um condor que voa até os Andes. Mas, antes de sair daqui, ele abriu as gaiolas. Todo mundo estava na gaiola. Disse: “saiam, tenham coragem, voem!” Porém, as igrejas locais, durante vinte anos ou mais, foram acostumadas a ficar nas gaiolas.

    Foto: Lourdes Ribeiro/IP
    As igrejas aqui no Brasil?

    Não no Brasil, no mundo inteiro. Não estavam acostumadas a ter voo próprio, então, até hoje está acontecendo que a igreja local não sai da gaiola. É tão cômodo, recebe-se a comida e alguns que tentaram sair perceberam que perderam a capacidade de voar. Então voltaram novamente à gaiola, de forma que está acontecendo nesse momento, que este Papa ainda não aterrissou na igreja local, tanto aqui na Europa, como na América Latina e alguns já dizem: “Este Papa, a eleição dele é um acidente de percurso! Então vamos esperar já o sucessor.”

    Esta é a dificuldade do próprio Papa, ele tem dificuldade de ser acolhido com suas ideias, com seu carisma, com sua profecia na própria Cúria. Ele está sofrendo – e eu já sinto isso faz tempo – uma solidão institucional e está sentindo uma pressão temporal. Tem quatro ou cinco anos (ainda de papado), humanamente falando. Ele não vai ficar até os noventa anos em Roma. Então tem pouco tempo e pouco apoio no lugar onde está. Nós precisamos dar todo o apoio a ele. Os que entendem e se alegram com essa vinda do Papa, precisam dar todo o apoio para a sua teologia para estes sinais de misericórdia. De receber, o que parecia dois anos atrás impossível, de receber moradores de rua na Capela Sistina. Ninguém precisava pagar nada. Comprar guarda-chuvas para eles. Ele acolhe a periferia.

    Se o Papa, como ele mesmo disse, deixar a sua função em dois ou três anos, existe a possibilidade de existirem dois papas eméritos ao mesmo tempo. O que você acha que isso significaria para a Igreja?

    Isso significa que ele vai voltar para a Argentina, para uma casa de padres idosos – o que ele já tinha planejado antes de ir para lá – ele não vai ficar na Cúria Romana, a não ser que o prendam lá. Ele vai voltar à vida normal, porque ser Papa não é uma unção especial, não é um Sacramento, é um trabalho administrativo que se cumpre por um determinado tempo. Por isso foi bom que o Bento, quando ele deixou de ser Papa, mostrou também que isso não tem a ver com um caráter específico – como a Crisma, que se recebe – mas com um trabalho administrativo. O caráter é: você é bispo. Então ele vai voltar a ser bispo emérito, não papa emérito.

    A existência de dois papas eméritos tira essa força da figura do pontífice na Igreja?

    Não, acho que não. O Bento, ele foi leal àquilo que prometeu que não iria criar dificuldades. Eu creio que, de fato, ele não criou. Os outros, às vezes querem utilizá-lo para criar contraposições ao Francisco, mas, da parte dele, eu creio que não vai ser um grande problema. O problema vai ser: quem vai ser o próximo Papa?

    Como você vê essa sucessão? Você acha que ela seria na mesma linha do Francisco, ou ainda não dá para saber, conforme as nomeações (de cardeais)?

    Eu me nego a discutir a sucessão, porque isso são os inimigos dele que já discutem e já querem marcar posições. Segundo, eu realmente não sei. A gente não sabe como andam as coisas, mas como sempre andam nessa dialética do Yin-yang, então, provavelmente vem alguém para retificar essas curvas onde ele realmente andou fora da curva, graças a Deus.

    Reportagens afirmam que à oposição ao Papa chega ao ponto de ele ser chamado nos corredores da Cúria de “argentino populista”. Em que nível você vê essa oposição ao papa por parte do clero?

    Bom, dizia-se isso um pouco dos peronistas, que eram populistas. Eu não acredito, porque o populista não faz. Agora o Papa faz e fala daquilo que está fazendo e dando sinais. Ele vai dando sinais e vai longe. Dá sinais onde ele mostra concretamente as suas ideias concretas. Isso, o populista não faz. O populista faz promessas e ele não faz promessas, ele dá sinais que às vezes são mais fortes que os próprios atos. Ele está muito cercado e limitado pela história dos antecessores. Acho que já foi muito longe, se continuar assim... Agora convocou o Ano da Misericórdia, também em vista do Sínodo do matrimônio, dos casados. Eu creio que é um bom caminho. Nunca ouvimos se falar com tanta sinceridade da igreja misericordiosa, o que seria a sua tarefa.

    Você acha que o Papa deve conseguir o quórum suficiente para aprovar algumas mudanças na segunda parte do Sínodo da Família nesse ano?

    Ele não pode ir mais longe do que o conjunto da Igreja. Ele é até prudente, porque poderia ordenar de cima para baixo isso e aquilo, mas não teria substância, não tem continuidade. Ele precisaria de muitos anos para nomear outro grupo de seguidores. Eu creio que ele tem uma certa experiência na vida religiosa, por isso também convocou este ano da vida religiosa, que os religiosos que são mais livres, poderiam ser os sujeitos desse avanço profético que ele fez, que ele incentiva, convida: “tenham coragem”. Então vamos ver até onde os e as religiosas vão entrar nesse caminho que ele está sonhando para eles.

    Foto: Lourdes Ribeiro/IP
    Com a mudança do Bento XVI para o Papa Francisco, houve uma mudança no papado de um Papa tradicional para um mais progressista, seja na pastoral ou nas críticas que ele faz ao capitalismo. Você acha que essa mudança provoca alguma diferença nos conflitos dentro da igreja entre grupos tradicionais, carismáticos e da Teologia da Libertação?

    Até agora, ainda são hegemônicos os setores nomeados nos pontificados anteriores. Então os que querem avançar não tem força, não têm muita força. Isso viria apenas com a nomeação de figuras como Hélder Câmara, como profetas que tivemos, aí teria mais possibilidade. Mas os que estão aí são gente boa, eu diria, de boa vontade, querem servir para a Igreja. Mas nós precisamos aprender a aceitar essa diversidade na Igreja, se não criamos uma ditadura da Esquerda e não é o que queremos. A Esquerda sempre coube em um Fusca, enquanto a Direita fez cisma quando não foi atendida. A Esquerda não tinha força para fazer isso.

    Os leigos hoje, para promoverem mudanças na Igreja, ainda dependem muito de pastores?

    Eu creio que aí precisaria se mudar algo... A gente viu em vários lugares conflitos. É sempre a mesma coisa, os pastores que trabalham abertos com os leigos e aí não tem conflitos. Os que estão insistindo em suas prerrogativas no clero – e esse grupo é muito forte – eles querem os leigos como cordeiros, o que não é a vocação deles.

    Você faz parte de um movimento, a Ameríndia, que tenta trazer um pouco, para a Teologia da Libertação, as injustiças com os indígenas. Como você avalia hoje a Teologia da Libertação no mundo e você acha que ela tem conseguido atingir os problemas indígenas?

    Penso que na origem, a Teologia da Libertação não tinha muita percepção dos indígenas, mas isso mudou radicalmente e hoje nós estamos unidos na teologia índia – que inclusive foi considerada pela Cúria sucessão da Teologia da Libertação, com outros prefixos – e é uma das batalhas pelos últimos pedaços de terra que existem, essa luta pela sobrevivência dos povos indígenas. E nosso país, aqui no Brasil, a situação é muito ruim. A presidente (Dilma Rousseff), em seus dois discursos, quando iniciou o seu segundo mandato, não mencionou com nenhuma palavra os indígenas, negou-se a os receber no primeiro mandato. É uma luta que vai na marra ou ela não vai. Os indígenas estão muito acuados, porque defender índios hoje no Brasil não dá voto. Então o deputado, que também pensa em sua reeleição, ele pensa três vezes em defender em público os povos indígenas. Então nós temos ligados lá do Cimi para Brasília, para os gabinetes dos deputados, para a Justiça Federal, porém, a gente sai com pílulas de consolação sem fatos concretos.