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Os moradores de rua também são filhos de Deus

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  • segunda-feira, 13 de abril de 2015
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  • Foto: Reprodução/Facebook

    A constatação parece meio óbvia, mas talvez seja preciso relembrá-la.
    Segundo pesquisa do Datafolha de 2013 - divulgada na véspera da vinda do Papa ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude - os católicos representavam na época 57% da população no Brasil. Foi uma queda de 7% em relação aos números de 2007, mas ainda é uma parcela substancial.
    O número pode ser somado aos 19% (ante 17% no outro período) de evangélicos pentecostais e aos 9% (anteriormente, 5%) de não pentecostais. Sem ainda contar os 3% (número manteve-se estável) de espíritas kardecistas e também outras profissões de fé com a ideia de comunhão, como o candomblé e a umbanda, temos um total de 85% de pessoas que deveriam se tratar como iguais por serem filhas de um mesmo Pai, amando umas às outras.
    Entretanto, não é esta atitude que se percebeu na última semana, a primeira do tempo pascal.
    “Fui enquadrada pela GCM e por soldados da Força Tática e eles me disseram que iam tacar fogo em mim", contou a moradora de rua Rosângela da Silva em reportagem ao Paulistana.
    “Estão invadindo os nossos barracos sem nenhuma autorização, pegando as nossas coisas e nos atacando. Querem exterminar a gente”, disse o sem-teto João Santos de Oliveira, que havia acabado de ter uma arma da Rocam (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas) apontada a ele, para ficar em apenas mais um depoimento.
    As declarações foram dadas em assembleia dos irmãos de rua na última quinta-feira (9) no Centro Comunitário São Martinho de Lima, no Belenzinho.
    Lá se encontraram o vigário episcopal da Pastoral Povo da Rua, Julio Lancellotti, e o secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy. O ex-senador, desde que assumiu a pasta em fevereiro, tem ido pessoalmente às ruas ver a situação dos sem-teto. Mas mesmo a iniciativa parece ser insuficiente.
    "A impressão que fica é que está tudo muito vago", disse Lancellotti após reunião com a prefeitura ter sido marcada apenas para maio.
    O problema não é novo: passam-se governos ditos mais conservadores (Serra, Kassab) e se chegam governos ditos mais progressistas, atentos aos mais necessitados (Haddad), mas continua a mesma política higienista da Guarda Civil Metropolitana de ir ao centro e expulsar por meio da violência os irmãos de rua de seus locais de refúgio e apreenderem os seus pertences - os únicos que têm na vida. Cria-se uma situação de verdadeiros "refugiados urbanos" e a necessidade de ações rápidas para atender as suas necessidades. Sem nem ao menos um lar para si, esses supostos Filhos de Deus parecem não ter ao menos o direito de existirem.
    "Envergonha a dignidade humana , avilta e humilha. Em nome de Deus misericordioso e compassivo, cessem a repressão. Eduardo Suplicy, cumpra a sua missão!", escreve Lancelotti em sua página no Facebook sobre o confisco de bens e a violência contra os sem-teto.
    Mas as polícias, que devem ter vários cristãos entre as suas tropas, não são as únicas que parecem ter esquecido a irmandade cristã.
    O jornal Folha de S.Paulo também noticiou na semana passada a contratação de seguranças privados por moradores de bairros como a Vila Leopoldina para expulsarem os sem-teto das ruas. Ao jornal, eles dizem apenas afastar usuários de drogas e o bispo da Região Lapa, Dom Julio, afirma acompanhar a situação.
    A crise hídrica ainda tem causado a falta de água em abrigos para moradores de rua, um problema para indivíduos que tem pouco a quem recorrer. Uma das saídas é o auxílio da Igreja, que tem distribuído garrafas de água mineral aos domingos aos moradores de rua. Mas aqui se encontra um limite de recursos para fazer o que o Estado deveria fazer e contestar o que ele não deveria fazer.
    Em tempos de falta de amor ao próximo, lembra-se o que foi escrito na primeira carta atribuída a São João.
    "Vejam que prova de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus. E nós de fato o somos!
    Se o mundo não nos reconhece, é porque também não reconhecemos a Deus.
    Amados, desde agora já somos filhos de Deus, embora ainda não se tenha tornado claro o que vamos ser. (1 Jo 3, 1)"
    Que um dia nossos irmãos de rua possam ter acesso de fato a essa irmandade.