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A encíclica que nos espera

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  • segunda-feira, 4 de maio de 2015
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  • Foto: MorgueFile

    "Erradicar a pobreza extrema, colocar fim à exclusão social e proteger o meio-ambiente são valores que são plenamente coerentes com as grandes religiões. Papa Francisco é uma das vozes morais mais apaixonadas por estes valores e eu aplaudo sua liderança". Foi assim que o secretário geral da ONU (Organização das Nações Unidas) Ban Ki-moon definiu o papel do pontífice frente aos problemas do mundo, após se reunir com ele no Vaticano no último dia 28. Papa Francisco tem se destacado por dizer o que pensa e a expectativa é que ele fale agora sobre o que fazer frente ao assunto da ecologia.
    A preocupação do papa com a preservação da natureza ficou evidente em encontro em janeiro do ano passado com o presidente da França François Hollande. Em conferência, Francisco foi sucinto ao dar a sua opinião: "Deus perdoa sempre; o homem; às vezes; a natureza, nunca, se não é cuidada."
    A notícia, em junho, que a próxima encíclica do papa - e a primeira a escrita por ele sozinha, já que Lumen fidei foi iniciada por Bento XVI - seria sobre o meio ambiente criou expectativa e se misturou a questões políticas quando a agência italiana Ansa revelou, em outubro, que Francisco teria pedido ajuda de Leonardo Boff para escrever o tipo de documento mais importante para um papa.
    Boff foi o precursor no Brasil da Teologia da Libertação, a corrente teológica anticapitalista que fez com que o frade franciscano fosse censurado nos anos 80 pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santa Inquisição), Joseph Ratzinger, o futuro papa Bento XVI. Boff largou a batina antes de ser condenado pela segunda vez a ficar calado e seguiu com seus livros e estudos. A aproximação do pontífice atual com o brasileiro indicou uma maior aproximação com a opção preferencial da Igreja pelos pobres, presente nos discursos de Papa Francisco.
    Entretanto, a questão política referente à encíclica não é apenas a única levantada pelo caso. O meio ambiente costuma ser esquecido tanto pelos que defendem os donos do poder na sociedade, tanto como pelos que tentam trazer ajuda e mudança aos mais vulneráveis. Este não é o caso de Boff.
    "Em seu discursos oficiais, os chefes de Estado, os empresários e, o que é pior, os principais economistas, quase nunca abordam os limites do planeta e os constrangimentos que isso pode trazer para a nossa civilização. Não queremos que nossos filhos filhos e netos, olhando para trás, nos amaldiçoem e toda a nossa geração que sabíamos das ameaças e nada ou pouco fizemos para escapar da tragédia", disse o teólogo em texto postado em seu blog no último sábado (2).
    O ex-frade defende mudança na economia mundial que acaba com a desigualdade e que passe pelo fim da degradação do meio ambiente e são os seus materiais que foram enviados como ajuda ao Papa Francisco por meio do núncio apostólico da Argentina Emil Paul Tscherrig, como o teólogo confirmou mais uma vez na semana passada em entrevista à TV Brasil. "Foi dirigida petição a mim pelo embaixador e me disse: 'não envie ao Vaticano, pois não entregam'", disse sobre a oposição que o papa tem sofrido dentro da cúria.
    Francisco, que faz declarações anticapitalistas e que diz que o machismo quer dominar a mulher desde os tempos de Adão, por exemplo, pode surpreender ao não querer se omitir mais uma vez, agora frente à destruição do que nos foi dado por Deus.
    "Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta", disse o papa em sua exortação apostólica Evangelli gaudium, em 2013.
    É o tempo de os cristãos e católicos perceberem que é preciso seguir os apelos já dados por Francisco, os que ainda devem vir em sua encíclica já terminada e prevista para ser divulgada mês que vem, e amar, assim, a natureza como se estivéssemos a olhar para Deus.
    "Javé Deus tomou o homem e o colocou no Jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse. (Gn 2, 15)." Já não temos mais um verdadeiro paraíso na Terra, mas precisamos salvar o que dele ainda nos resta.