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A política externa do Papa Francisco

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  • segunda-feira, 18 de maio de 2015
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  • Redação
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  • Foto: Divulgação

    O provável reconhecimento do Estado da Palestina pelo Vaticano demonstrou que a Igreja Católica, comandava por Francisco, não possui medo de se posicionar. O papa tem procurado dialogar com os diversos interesses e opiniões dentro da Igreja, mas não hesita em marcar suas posições como líder do catolicismo romano.
    Na primeira parte do Sínodo da Família, em outubro do ano passado, o papa permitiu que os debates acerca de temas como o acolhimento dos homossexuais e dos casais de segunda união pela Igreja fosse feito de forma democrática pelos bispos. Entretanto, deixou claro que era favorável às duas questões. Este tipo de ação pacificadora de Francisco também foi demonstrado quando convidou e se reuniu com Shimon Peres e Mahmoud Abbas - presidentes, respectivamente, de Israel e da Autoridade Nacional Palestina - no Vaticano para rezar pela paz em junho do mesmo ano.
    Terras do Oriente Médio são de interesse tanto do judaísmo, cristianismo e islamismo por conta de seu passado histórico-religioso. Israel, que representa a religião detentora do credo que deu origem as outras duas religiões monoteístas, não permite que seja formado na Faixa de Gaza e a Cisjordânia, de população majoritariamente islâmica, um Estado palestino com esta parte da Palestina da época de Jesus que está hoje em disputa. As forças armadas israelenses vivem a reprimir e assassinar civis da Faixa de Gaza sobre o pretexto de combater o grupo terrorista Hamas e Israel pressiona o resto do mundo a ficar de seu lado. Dentro desse contexto e após se reunir com as duas maiores autoridades israelense e palestina, o Vaticano divulgou na quinta-feira (13) a finalização de acordo que devem reconhecer a existência do Estado da Palestina. Logo depois, o Papa Francisco teve a coragem de receber Mahmoud Abbas em audiência, sob represália de Israel. Ainda com forte simbologia, canonizou duas freiras palestinas no domingo (17). A relação com a Palestina, claro, não é o único caso de coragem do Papa nas relações exteriores do Vaticano com outros países.
    "O genocídio é um conceito jurídico e as reivindicações atuais não satisfazem os pré-requisitos da lei, mesmo que sejam baseadas em uma convicção amplamente difusa, isso é uma calúnia", disse nota do embaixador da Turquia no mês passado, Antonio Lucibello. "Advirto o Papa para não repetir esse erro e o condeno. Quando dirigentes políticos e religiosos assumem o papel dos historiadores, isso gera delírio, não fatos", disse, em seguida, o presidente turco Recep Erdogan ao jornal Hurriyet.
    Mais de um milhão e meio de armênios foram perseguidos no país pelo partido "Jovens Turcos" entre 1915 e 1916. A polêmica ocorreu por causa do Papa chamar o massacre no começo do século XX de "genocídio", nomenclatura não aceita pela Turquia. No dia da declaração do embaixador turco, Francisco disse em homilia que a Igreja deve ter "franqueza" e a "coragem cristã" de "dizer as coisas com liberdade". Também sem citar a nota do governo turco, utilizou os atos dos apóstolos Pedro e João para dizer que um cristão "não pode ficar quieto sobre as coisas que vê e escuta". As relações acabaram por se esfriar quando o vice-ministro de economia da Turquia, Adnan Yildirim, convidou o papa para visitar tenda do país na Expo Milão 2015, convite que foi aceito.
    Outro caso de coragem nas relações exteriores do papa, e o de maior destaque, foi a sua interferência nos bastidores do retorno das relações entre os Estados Unidos e Cuba. O Vaticano promoveu encontros secretos entre autoridades dos dois países. Recentemente, o papa recebeu o presidente Cubano em audiência e passará pela ilha antes de visitar os Estados Unidos em setembro, onde deve fazer mais uma de suas frequentes críticas ao capitalismo no Congresso do país que defendeu o sistema econômico durante a Guerra Fria.
    Papa Francisco mostra que é um pontífice que constrói verdadeiramente pontes e que sabe fazer os seus caminhos. Ao ir para Israel, passou pela Palestina. Agora ao ir aos Estados Unidos em setembro, irá fazer passagem por Cuba.
    As ações do papa vão de encontro ao posicionamento que parece esperar de seu rebanho imenso no mundo quando diz, por exemplo, que cristãos que são medrosos não entenderam a mensagem de Deus.
    Prestar atenção nas ações do papa, por fim, é uma forma de se espalhar na imagem de Cristo e lembrar que Jesus também não deixou de marcar suas posições frente aos problemas que afligiam os irmãos mais vulneráveis de sua época.
    Não "ficar quieto sobre as coisas que vê e escuta" é uma das lições de que o Papa Francisco ensina ao mundo.