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Cerca de 75% do clero é gay, estima ex-sacerdote católico

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  • sábado, 30 de maio de 2015
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  • Redação
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  • Beto fez críticas a quem condena a sexualidade, mas a mantém na vida privada

    Para teólogo, Jesus era humano e foi São Paulo que "crucificou" o sexo. Foto: Arthur Gandini/IP

    Por Arthur Gandini

    Atualizado em 31/05 - 08:44

    O ex-sacerdote excomungado da Igreja Católica, Roberto Francisco Daniel, afirmou neste sábado (30) que a maior parte do clero é gay e por isso a Igreja condena e busca se afastar da homossexualidade.

    A declaração foi dada durante palestra no evento "Igreja e Sexualidades: um diálogo necessário", promovido pelo grupo católico IPDM (Igreja - Povo de Deus- Em Movimento), da Diocese de São Miguel Paulista.

    "Vou chutar baixo: 75% do clero é formado por gays e quer fugir desse fantasma (de encontrar pessoas iguais)", afirmou. "Ou encontra a si mesmo, ou encontra alguém com quem transou", disse sobre risos da plateia.

    O evento foi assistido por cerca de 100 pessoas pela manhã em auditório do CEU (Centro Educacional Unificado) Aricanduva e teve o apoio do grupo ecumênico Koinonia e do movimento Nossa Itaquera. O objetivo foi debater o tema tabu na Igreja da sexualidade e da homossexualidade.

    Ainda conhecido "Padre Beto" da Diocese de Bauru (SP), o também teólogo foi expulso oficialmente da Igreja em 2013 por não aceitar retirar da internet críticas que fez à condenação da homossexualidade. Hoje celebra missas independentes, dá aula de filosofia e é escritor.

    "Você fecha em um seminário 30 homens jovens com libido", disse sobre o que chama de se criar uma "espiritualidade neurótica" no clero. "Somando-se a isso, temos uma sociedade conservadora onde a pessoa se esconde tornando-se padre. Aí você vai para o seminário e encontra iguais (a você)", disse.

    Roberto Daniel também falou sobre o motivo não oficial de sua excomunhão e afirmou que a "crucificação" do sexo foi estabelecida por São Paulo e difere do exemplo de vida de Jesus.

    Confira as principais declarações do ex-sacerdote:

    Sexualidade

    "O que o padre mais ouve nas confissões é sobre a sexualidade. Isso começou a chamar a minha atenção, quando gays e lésbicas vinham se confessar. Casais héteros também falavam sobre a sua vida sexual com culpa". Roberto também citou o tema da masturbação. "Quantas vezes ouvi que era pecado?"

    Doutrina católica

    "A partir do momento que moldo e formato o indivíduo, eu controlo o indivíduo."

    "A Igreja castra a sexualidade ao invés de dar educação sexual e ajudar a termos um mundo melhor."

    Corpo e espírito

    "Nós somos corpo, não somos espírito. Esse Reino de Deus toca nosso jeito de ser. Uma sexualidade não resolvida resulta em uma espiritualidade neurótica. Temos missa de Cura e Libertação para pessoas carentes."

    Vida privada

    "Temos um padre preconceituoso na TV, mas escondido, ele procura satisfazer as necessidades. É um pouco de esquizofrenia".

    Discussão

    "Hoje vejo tanto medo nos seminaristas de serem expulsos, de não poderem expressar as suas ideias".

    "Discutir a sexualidade não é discutir genitalidade, é discutir nossa maneira de ser. Não sei se vocês já encontraram padres que se afastam quando você se aproxima, tem medo de dar um abraço."

    Natureza e Jesus

    "Deus não nos criou assexuados. Acredito que a vontade de Deus não é nos tornar anjos. O verbo se fez carne. (Com o estabelecimento do dogma da virgindade de Maria), ficou uma carne celestial, não humana. É uma mitificação, Jesus foi um ser humano completo e tinha sexualidade."

    "A Igreja trata a sexualidade como algo impuro, pesado. De onde veio isso? De Jesus não foi. Seu primeiro milagre foi transformar a água em vinho. Era ele quem andava com as prostitutas. Jesus não disse um 'ai' (sobre condenar o sexo e a homossexualidade)."

    "É claro que Jesus estaria lutando pela causa LGBT. O verbo se faria carne hoje como uma mulher negra, lésbica e da periferia."

    "A família de Jesus não era tradicional. Era uma mãe solteira. José adotou Jesus para salvar Maria. Jesus era um filho adotado."

    Foto: Arthur Gandini/IP
    Teologia e cultura

    "Paulo é estoico, vem de uma filosofia que pregava a razão e todo o resto era (uma característica) animal. Paulo traduz isso em teologia. O espírito nos liga a Deus e a carne nos afasta. (Unir-se para se reproduzir) é a visão racional da sexualidade. Depois veio Agostinho com o neoplatonismo."

    "São visões de mundo, que Jesus não pregou, que fizeram a sexualidade ser crucificada. Isso é um crime e uma infelicidade."

    "Maria foi perdendo a sua sexualidade (com o passar do tempo). As imagens não possuíam seios acentuados, seu corpo parecia como de um homem. Mas ela foi uma mulher".

    Hipocrisia

    "Aquele jogo de cintura hipócrita que existe em nossa comunidade", disse sobre os casais de fiéis que criticam o uso de contraceptivos, mas os usam e não fazem com que seus filhos deixem de usá-los.

    "Tem gente que tem medo de gay ser contagioso. Quem pensa isso, já é gay. Quem está no armário, vê um espelho e quer afastar esse fantasma. Vou chutar baixo: 75% do clero é formado por gays e quer fugir desse fantasma."

    Excomunhão

    "Eu gosto da Igreja. Foi uma dor forte (ser excomungado). Fazer críticas não é falar mal, é jogar com a verdade para que possamos crescer juntos", disse ele, que também afirmou ter sido expulso por pressão de padres carreiristas.

    "Me promoveram, foi um tiro no pé, a Igreja é burra. Quem ouve hoje a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)? A CNBB é burra."

    Pecado

    "É uma vida infernal e é isso que a Igreja constrói com o seu posicionamento. Se a Igreja quer ser instrumento de Deus, precisa aceitar (a homossexualidade)."

    "Meu Deus, o que há de pecado em duas pessoas viverem intimamente? Pecado é a fila do SUS (Sistema Único de Saúde). É a educação pública (brasileira)."

    "(Você só acha pecado ser gay) se aceitar a estoicidade de Paulo, mas aí a castidade tem de valer para todo mundo."

    "(Tem-se hoje) a teologia mais fácil, que mais justifica o poder clerical."

    "Um adolescente que deveria estar descobrindo a sexualidade, está se achando doente, querendo uma cura interior", disse sobre um jovem de 12 anos que lhe mandou e-mail, certa vez, confessando que se masturbava".

    Papa

    "Hoje estou em dúvida se o Francisco é um jogo de marketing. Foi eleito pelos mesmos que elegeram (Joseph) Ratzinger. Até agora, o que estou vendo são posturas pessoais e nenhuma mudança."

    "Ou é uma jogada de marketing, ou é uma pessoa que tem consciência de que a Igreja precisa de mudanças, mas não tem condições de fazê-las, então tenta dar o exemplo com posturas pessoais."

    Jovens

    "As novas gerações estão vendo outras formas de família com naturalidade incrível. Falta tirar (da sociedade) o preconceito."

    Fiéis e padres

    "Tudo (hoje) é dinheiro. Quando o padre não tem 'caixa', não confronta o fiel. A dependência financeira prende os padres. Se tivesse acontecido (a excomunhão) com outro padre, ele estaria em maus lençóis", disse Roberto sobre também ter renda como professor e escritor.

    "Que moral nós temos para falar para os leigos partilharem, se o padre da zona sul vive e bem e o da periferia, mal?", perguntou, sobre a Campanha da Fraternidade de 2010, que teve como lema “vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

    "Vocês (fiéis) são os únicos dentro da Igreja que têm independência financeira. Era para os leigos terem muito mais força. Tem que mostrar para o padre que ele não está lá (em seu posto) porque é uma vaca sagrada."

    "Padre não pode te mandar para o inferno, pedir para o seu patrão te demitir. Isso não existe mais."

    Celibato

    "Tem de ser opcional. Vi vantagem no meu celibato. Chegava da Igreja e queria ficar na minha sozinho, assistir um filme, fazer um 5 contra 1. Mas é preciso ter vocação para o celibato. Uma pessoa que não tem, vai ter uma atuação neurótica."

    Futuro da Igreja

    "É aquela pessoa que acredita em Deus, mas não quer ser de nenhuma igreja. Vê picuinhas e se afasta", disse como acha que deve ser futuramente a maioria dos cristãos.

    "Não desistam. Sejam mesmo uma pedra no sapato da hierarquia. Com vocês, pode ter a chance de se conversar (sobre o tema da sexualidade)".

    Foto: Reprodução
    Evento

    O encontro teve início com mística de jovens do grupo de base da Pastoral da Juventude da paróquia Nossa Senhora do Carmo, do setor Itaquera de São Miguel Paulista.

    Em seguida, leigos fizeram declarações e deram depoimentos antes de Francisco Daniel colocar questões para debate.

    "Tinha preconceito, não tinha conhecimento. Ao passar do tempo, vi que era natural de mim e o meu lado espiritual falou mais alto, amo a minha Igreja", afirmou Tyago Queiroz, membro do grupo LGBT católico GAPD (Grupo de Ação Pastoral da Diversidade).

    Edilson Cruz, do mesmo grupo, falou sobre a "velha dicotomia misericórdia x lei". "A minha homossexualidade era algo fora de mim, um mutilamento interior, algo que eu teria de arrancar de mim. Quero viver a festa do meu corpo, de forma responsável, claro, sem essa castração (da Igreja e da sociedade).

    Já a travesti Bruna Scocca falou sobre o preconceito que sofre. "Sou travesti, orientadora socioeducativa, cuido da população de rua e sou filha de catequistas. Acho engraçada a relação da religião com a sexualidade. É um amor que só te aceita se você for transformada", conta ela que já foi colocada em sessão de exorcismo pela família.

    O deputado federal Jean Wyllys (PSOL) enviou mensagem em vídeo que foi reproduzida no evento. O encontro havia sido divulgado inicialmente com a presença do parlamentar, que afirmou ter tido problemas na agenda.

    "Há muitos homossexuais na Igreja, então ela não pode fechar as portas para isso. Essas pessoas tem de serem consideradas Povo de Deus, nós temos que discutir essa diversidade", afirmou.

    Wyllys, que participou quando jovem de pastorais e se afastou da Igreja após não ser aceito como gay, lembrou o fato de o debate ter sido criticado nas redes sociais após ter ganho repercussão.

    "Quero dizer para essas pessoas odiosas, que elas estão descumprindo o mandamento de Cristo. Elas não estão na instituição certa. Promovem o ódio, sobretudo baseado na desinformação, na calúnia", afirmou.

    Também esteve presente no evento o vereador Toninho Vespoli (PSOL-SP), que falou sobre a dificuldade de discutir a sexualidade em um plano de educação na câmara dos vereadores.