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Internet não deve ser lugar para ofensa, diz bispo auxiliar da Lapa

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  • quarta-feira, 20 de maio de 2015
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  • Em entrevista ao Paulistana, Dom Julio falou sobre internet, CNBB e marxismo

    Para o bispo, rede também não deve substituir as relações sociais. Foto: Arthur Gandini/IP

    Por Arthur Gandini

    Dom Julio Endi Akamine, 51, é o atual bispo auxiliar da Região Lapa da Arquidiocese de São Paulo e uma pessoa ativa nas redes sociais.

    Por meio de seu perfil no Facebook, costuma compartilhar não apenas conteúdo institucional, mas também notícias relacionados à Igreja e ao mundo, em geral. Sua naturalidade, entretanto, rendeu-lhe discussão sobre política recente com internauta no mês passado.

    "Ferradura. .......cnbb......ong a serviço dp [sic] PT", comentou o internauta Fernando Henrique em postagem no dia 15 de abril. "Comentário injusto!", respondeu o bispo, antes de a conversa continuar.

    Em entrevista ao Paulistana na semana passada, Dom Julio comentou o caso ao falar sobre o uso da internet.

    "Procurei me comportar da forma que eu vejo que deve ser coerente também com o modo de se comportar dos cristãos. Acho que a internet não é o lugar... nenhum lugar deve ser lugar para ofensa, insulto pessoal", afirmou. "É lógico que todos nós temos opiniões diferentes, agora, a gente discute para encontrar as razões, não para ter razão a todo custo", afirmou.

    Dom Julio falou sobre como acha que os cristãos devem lidar com as relações virtuais. "Não devem substituir as relações pessoais, pelo contrário, deve favorecê-las, ajudá-las, aprofundá-las."

    Para ele, a missa não é celebrada por completo via internet. "Isso se dá através da presença da comunidade, a assembleia se reúne porque é convocada pelo Senhor."

    Segundo o bispo da Lapa, as igrejas evangélicas neopentecostais ainda estariam usando a comunicação mais "como uma forma de propaganda ou divulgação" do que como evangelização, ao contrário dos meios católicos.

    O bispo também falou sobre a relação da Igreja Católica com a doutrina marxista, a Teologia da Libertação e a orientação da Igreja brasileira conforme a conferência episcopal latino-americana de Aparecida, de 2007.

    Confira a entrevista completa abaixo.

    ***

    Como é administrar a Região Episcopal Lapa?

    Não é só administrar, a gente é responsável pela pastoral na nossa região. Temos 35 paróquias, mais ou menos uns 70 padres, mais ou menos uns 1.500 habitantes – está certo que nem todos são católicos. A Região Episcopal Lapa está sob a nossa responsabilidade, uma delas é também administrativa, uma vez que também a Igreja necessita de recursos para continuar fazendo o seu trabalho de evangelização. Tem toda essa complexidade de uma área da cidade de São Paulo que tem suas riquezas, suas dificuldades e suas contradições também.

    Na questão de recursos, você diz financeiros ou não apenas?

    Sim, claro. Recursos humanos, primeiramente, uma vez que o trabalho de evangelização é feito pelas pessoas, e também os recursos materiais, tudo aquilo que isso demanda de estrutura e dinheiro para manutenção.

    Estar presente nas redes sociais ajuda a saber o que está acontecendo e a ter contato com os fiéis?

    A internet não é só um meio de evangelização, é um ambiente, muito mais do que um meio. É também um meio de evangelização poderoso e importante, mas a internet, como diz o Papa Bento XVI, já é um ambiente de evangelização. Ele fala do “continente digital”. Não é que a gente apenas usa a internet como um meio, é um lugar que a gente pode estar presente e deve estar presente. Na internet, não está presente apenas os evangelizadores, está presente muitas pessoas com interesses variados: por comércio, por dinheiro, por lucro; tem gente que está lá para oferecer serviços, informações, obter informações.

    É um novo mundo em que a Igreja está se inserindo?

    A Igreja sempre esteve presente de maneira mais discreta ou efetiva, é uma presença que sempre teve. Lógico que agora a gente precisa levar em conta (a internet). A presença tem de ser de fato mais forte.

    Em março, o senhor compartilhou uma notícia do bispo mexicano Dom Alonzo Garza, que usou o aplicativo WhatsApp como um meio de evangelização para receber dúvidas de jovens. O que você acha a ideia?

    Acho que é uma boa iniciativa, não tenho nada contra, muito pelo contrário. Estou presente nas redes sociais, mas ao mesmo tempo a gente tem que tomar cuidado para que nada substitua o encontro pessoal. A internet e as redes sociais não devem substituir as relações pessoais, pelo contrário, devem favorecê-las, ajudá-las, aprofundá-las. As duas coisas devem estar ligadas, não são alternativas excludentes. A relação pastoral é uma relação entre pessoas, é uma relação pessoal. É aquilo que o Papa (Francisco) tem insistindo: de nós irmos ao encontro das pessoas, de uma lógica de encontro, de uma espiritualidade do encontro. Agora, as redes são uma forma muito boa de aproximar as pessoas também.

    Hoje em dia há muitas missas sendo transmitidas online. Você acha que não é algo excludente? Por que é transmitido, ninguém vai deixar de ir à missa?

    A questão da missa é uma questão que envolve um outro aspecto: o sacramento da Eucaristia, a celebração da liturgia que exige a participação pessoal. Ela ajuda a favorecer o contato das pessoas com a missa, com o mistério, mas insisto: não substitui a presença pessoal. Está certo que em muitos casos é o único contato que têm as pessoas, por exemplo, que moram distantes das igrejas, que não têm acesso à Eucaristia por falta de padres ou, então, as pessoas doentes e idosas que não podem sair da cama. Trata-se de colocar as duas coisas juntas. A celebração da missa pressupõe e exige a presença pessoal. Em alguns casos, fazer o quê, é (se faz) o que é possível.

    A Eucaristia, não tem como ser recebida virtualmente.

    Não, a missa real que é necessária, porque se trata da celebração do mistério. Isso de dá através da presença da comunidade, fazer parte. Ao final de contas, a missa é isso, a assembleia se reúne porque é convocada pelo Senhor.

    Recentemente, a Arquidiocese de São Paulo lançou um site novo. Você acha que esse é o futuro da Igreja, ter cada vez mais sites melhores e entrar nesta questão da tecnologia?

    Sim, claro. O novo site segue também essa lógica: não somente um meio de evangelização, mas um ambiente. Tem também o objetivo de fornecer às pessoas informações institucionais além das notícias. O site anterior, conforme nossa avaliação, era bastante noticioso e pouco institucional.

    Você acha que as igrejas evangélicas neopentecostais têm mais facilidade de comunicação, seguem mais à frente em relação a ter sites e também emissoras de TV?

    Eu acho que as igrejas... aí é difícil dizer. São modos diferentes de entender a presença nos meios de comunicação social. De novo, insisto nisso: não é usar a internet como um meio, mas estar nesse ambiente como evangelizador. Este é o caminho que a Igreja Católica tem assumido. Não é somente usar os meios como uma forma de propaganda ou divulgação.

    Essas igrejas se preocupam menos com a evangelização?

    Seguem uma lógica diferente.

    De mercado?

    Às vezes, muito mais próxima do mercado. A Igreja Católica não segue por esse caminho e nem vai seguir, não é a sua opção.

    Noticiamos recentemente a conversa que você teve com um internauta e, logo em seguida, surgiram acusações também contra o arcebispo Dom Odilo Scherer e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Como você vê o clima político na Igreja, que está presente nas redes sociais?

    Eu segui a mesma lógica que... como posso dizer, procurei me comportar da forma que eu vejo que deve ser coerente também com o modo de se comportar dos cristãos. Acho que a internet não é o lugar... nenhum lugar deve ser lugar para ofensa, insulto pessoal. É lógico que todos nós temos opiniões diferentes, às vezes temos posições diferentes e as defendemos – acho que isso é normal e não é ruim -, agora, o fato de a gente ter essas posições não significa que devemos assumir atitudes de acusação falsa. Isso não é modo de a gente se comportar nem na internet, nem em nenhum lugar... (risos) De fato, fiquei muito penalizado, lamento que o modo de se comportar seja tão longe do Evangelho. Esperaria uma atitude diferente. Não quis ofender as pessoas, procurei mostrar as razões. A gente discute para encontrar as razões, não para ter razão a todo custo.

    E essas pessoas, muitas vezes, estão agindo desse modo em nome do Evangelho? Onde elas erram, seria falta de conhecimento sobre Jesus, os ânimos se acirram...?

    Às vezes, é um pouco o resultado do acirramento dos ânimos que pode levar a uma falta de clareza e objetividade.  Sinceramente, não sei dizer qual é a razão. Infelizmente, pode haver também desinformação, informações falsas. As pessoas não erram em seu desejo de fazer o bem, procurar aquilo que é o Evangelho, mas em relação às informações. É lógico que se a pessoa acredita que não faz bem à Igreja ser marxista... eu também concordo. A Igreja não pode apoiar doutrinas marxistas? Eu também concordo. Agora dizer que a CNBB é uma organização seja marxista, esta uma informação errada e eu concordo plenamente que a CNBB não deve ser marxista e compactuar com a doutrina marxista. Acho que as pessoas não erram nisso, e sim, em dizer que a CNBB é marxista.

    Também tem voltado muito aos debates a Teologia da Libertação. Como você vê hoje esta corrente?

    Bom, já na época (nos anos 80), o cardeal (Joseph) Ratzinger (futuro Papa Bento XVI) emitiu um documento da Congregação para a Doutrina da Fé criticando duramente alguns pontos da Teologia a Libertação. Acho que o lendo depois de um tempo, com mais calma, a gente vai ver que ele de fato tinha razão, estava correto. Mas também colocou lá que era necessário... ele próprio reconheceu que estava fazendo (críticas) em relação ao negativo, mas a gente também pode falar sobre algumas coisas que são positivas sobre a teologia. Depois teve um documento que disse que era possível e uma boa e sã Teologia da Libertação também era necessária. Nós temos, por exemplo, o documento da (conferência episcopal latino-americana) de Aparecida (que fala sobre a opção preferencial da Igreja pelos pobres) que é uma sadia e ortodoxa Teologia da Libertação.

    O Papa Francisco tem falado muito sobre os pobres em seus discursos, mas também já disse que a Teologia da Libertação não seria mais atual. Você acha que os fiéis têm dificuldade de entender até que ponto ela estaria correta? Falta clareza?

    Quanto aos pronunciamentos, não. Agora, a realidade é complexa, por isso que é difícil de a gente ler as coisas nesta ideia de que ou é “assim”, ou é “assado”.

    Uma visão maniqueísta?

    Exatamente, acho que temos que ir com calma, por nem sempre é fácil de entender a realidade e ir classificar as pessoas e grupos de modo tão fácil.

    Na política brasileira...

    É, tanto os extremos, às vezes eles também são muito próximos. A mesma polarização que alguns partidos de esquerda fazem - ou faziam - policiamento ideológico, essa contraposição “nós e eles” . Às vezes, também acontece nas tendências mais à direita.

    E isso acaba sendo trazido para dentro da Igreja?

    Pode acontecer também, mas não é essa a forma como a Igreja tem trabalhado, procurado ver, ter uma visão objetiva isenta de radicalismos.

    Como bispo, que caminhos você vê para a Igreja Católica e acha que ela deve trilhar ou seguir trilhando daqui para frente?

    Acho que é seguir as indicações do Papa Francisco. A (exortação apostólica) Evangelli gaudium, no documento, ele fala dos caminhos de uma nova estação evangelizadora marcada pela alegria. Temos o documento de Aparecida que é um documento de visão muito ampla e também as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (feitas no mês passado pela CNBB na 53ª Assembleia Geral).

    Em relação a essas diretrizes, que expectativas você tem para a Assembleia do Sul 1 que irá acontecer no mês que vem?

    Nós vamos nos debruçar sobre as diretrizes. Agora começa o trabalho de recepção. Uma vez que elas são aprovadas – estamos esperando a publicação – começa o período. Recepção, o que que é: tomar conhecimento a aplicar no próprio lugar onde estamos. Tem a assembleia e depois cada diocese precisa fazer esse trabalho. Mas são adaptações do que as diretrizes anterior já tinham chamado a atenção.