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Prefeitura é “extremamente intolerante e higienista”, diz Lancellotti

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  • segunda-feira, 11 de maio de 2015
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  • Em entrevista ao Paulistana, vigário disse que repressão aos sem-teto é contínua

    Para o padre, moradores de rua não têm a atenção da opinião pública. Foto: Arthur Gandini/IP

    Por Arthur Gandini

    O vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, Julio Renato Lancellotti, 66, tem feito críticas a como a prefeitura da cidade lida com a situação dos sem-teto em São Paulo.

    A Secretaria de Assistência Social divulgou na última sexta-feira (8) Censo que afirma que a população de rua teria crescido 10% em relação a 2011. O sacerdote, entretanto, aponta que parte dos sem-teto não teria sido ouvida pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), responsável pelo estudo.

    Em entrevista ao Paulistana nesta segunda-feira (11), Lancellotti também disse que vê pouca ação da prefeitura para auxiliar na sobrevivência dos sem-teto no inverno em junho e criticou ações da GCM (Guarda Civil Metropolitana) como a ocorrida no último dia 29 na Cracolândia.

    "Essa administração é extremamente intolerante e extremamente higienista. Isso nós temos acompanhado diariamente nos relatos da população que tem pilhadas suas coisas", afirma.

    Para o sacerdote, poucas pessoas dão atenção aos moradores de rua. "São pessoas que não tem a opinião pública, a mídia, grandes interesses do seu lado".

    O padre ainda contou que aconselhou o ex-senador Eduardo Suplicy, antes de ser nomeado para a prefeitura neste ano, a não aceitar ser um "secretário de Direitos Humanos de uma administração que não tem compromisso com os direitos humanos."

    A assessoria da pasta afirmou ao portal que não irá se posicionar em relação a nenhuma das críticas.

    Confira a íntegra da entrevista abaixo.

    ***

    Paulistana: Por que você coloca em xeque o Censo da prefeitura?

    Lancellotti: A minha preocupação com o Censo é de que desde a realização dele – e quando ele foi apresentado – nós levantamos algumas questões. Uma delas: a quantidade pessoas da população de rua que está no CDPs (Centros de Detenção Provisória) e que vão voltar para a rua. Precisaríamos saber quantas pessoas são. As que estão em clínicas de tratamento – que foram encaminhadas pelos próprios serviços da prefeitura -, as que estão nas entidades religiosas não conveniadas com a prefeitura - por exemplo, a Cristolândia da Igreja Batista que encaminha as pessoas para Itaquaquecetuba (SP)-, as que estão nas casas da cidade da Missão Belém, encaminhados para Jabilu (SP) ou para o ABC (Paulista). Também, essas pessoas são da população de rua da cidade e estão nesses lugares por um tempo e acabam voltando para rua. (Há também) as que estão nos hospitais.

    Tudo isso foi apontado antes e a resposta que tivemos da Fipe é que o objetivo não era levar em conta essas questões, que o Censo é um retrato do momento de quem está na rua. Depois, durante a execução, nós recebemos o cronograma da contagem nas várias regiões da cidade e esse cronograma foi mudado por causa de dias em que choveu. O horário era também um horário às vezes de madrugada. Não levaram em conta a quantidade de barracos que tem e não conseguiram entrar. Em alguns momentos – as próprias pessoas da rua comentam – eles contavam uma pessoa por barraco. Depois, uns que estavam atrás de muros que não foram contados e outros que puseram os pesquisadores para correr.

    A prefeitura tem a intenção de esconder a gravidade do problema da moradia de rua na cidade?

    Eu não sei se eles têm a intenção de esconder. Eles gostariam que pelos milhões que são gastos por mês para a população de rua – aluguéis de R$ 30 mil, R$ 20 mil, o pagamento das entidades - dentro dessa lógica mesquinha, que o resultado fosse outro. Tanto é que a secretária da Assistência Social (Luciana Temer, filha do vice-presidente da República Michel Temer) diz que houve uma pausa no crescimento da população de rua, que cresceu só 10%, como querendo dizer: “Está vendo? As nossas ações foram tão boas que cresceu só 10%”. O crescimento, segundo o Censo da Sociologia da Política (FESPSP - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, de 2011), da população de rua é o mesmo que o crescimento demográfico da cidade (0,1% ao ano). Seria estranho que o número (atual) fosse esse, sendo que os lugares de atendimento atendem um número muito maior.

    A secretária disse que o crescimento não foi maior porque, na atual política do governo que não seria higienista, os moradores de rua estariam saindo mais às ruas.

    Isso é um raciocínio totalmente estranho, porque as ações são contínuas, sistemáticas, contundentes e permanentes. Usar esse tipo de argumento de que há uma sensação de que a população de rua aumentou porque eles estão sendo vistos, saíram dos buracos, porque essa administração é tão tolerante. Essa administração é extremamente intolerante e extremamente higienista. Isso nós temos acompanhado diariamente nos relatos da população que tem pilhadas suas coisas, são expulsos e removidos (dos locais em que se refugiam). E também, durante a realização do Censo, ocorreram diversas remoções, como na Vila Leopoldina, que tem seguranças privados e particulares fazendo a segurança das ruas.

    São Paulo já passou por prefeitos de diferentes perfis e partidos, mas a política relacionada à moradia de rua é sempre a mesma. Por que se dá tanta pouca atenção aos sem-teto?

    É um problema que chama a atenção. As subprefeituras recebem muita reclamação para que as pessoas sejam removidas. Embora eles (os sem-teto) sejam 0,1% da população, é uma população que chama muita a atenção como um problema a ser evitado. Como são pessoas que não tem a opinião pública, a mídia, grandes interesses do seu lado, é uma população que pode ser empezinhada e que a maior parte da cidade vai se calar.

    Foto: Arthur Gandini/IP
    Qual a alternativa ao uso da força na Cracolândia? É possível identificar quem atua com o tráfico na região e quem é apenas usuário e necessita de ajuda?

    Eu acho que é possível em um trabalho contínuo e permanente. É muito tênue tudo isso e também os grande traficantes não estão lá. Agora esse tráfico da Cracolândia, como em outros lugares, faz parte do crime organizado. Crime organizado significa que tem a participação de agentes de Estado. O crime não é organizado porque eles tem iPhone, é porque tem participação de agentes de Estado.

    A Pastoral tem reclamado da falta de água em abrigos para os irmãos de rua. Qual a resposta da Sabesp para o problema?

    A resposta é que foi feito um levantamento, que vai se ver de aumentar os reservatórios, mas tudo isso ainda está sendo feito muito devagar. Existe muita dificuldade. Como se espera que esse problema (da crise hídrica) vai ser resolvido milagrosamente, então não há interesse. A gente sente em alguns momentos, nas ruas, as pessoas muito sedentas e com muita dificuldade de acesso à água potável.

    Que medidas hoje estão sendo tomadas para garantir a sobrevivência dos irmãos de rua no inverno?

    O prefeito (Fernando Haddad) fez agora uma portaria formando um comitê emergencial – ao meu ver muito em cima da hora – com a participação do governo, porque a entidade civil, nós tomamos a decisão de que não iríamos entrar nesse comitê porque as ações são sempre extremamente de imposição, não levam em conta as propostas que fazemos, como a descentralização (das decisões). Acredito que novamente vamos viver um inverno com muitos problemas.

    Até que ponto a Pastoral tem condições de resolver o problema da moradia de rua? Ela acaba assumindo responsabilidades que são do poder público?

    A Pastoral não executa nenhum programa para resolver o problema. Quem tem de resolver é o poder público, a iniciativa privada, mas isso tem de ser resolvido pelos governantes. A moradia é um direito das pessoas. A Pastoral não tem como objetivo fazer nenhum conjunto habitacional, nem tem nenhum prédio, nem vai fazer nenhum aluguel social. Quem tem de fazer isso é a prefeitura.

    Você tem feito pedidos frequentes em sua página no Facebook para que o secretário de Direitos Humanos e Cidadania ajude a resolver os atuais problemas. O ex-senador Eduardo Suplicy é uma personalidade política e criou-se uma expectativa quando foi anunciado que iria assumir a pasta. Houve uma decepção com a sua atuação?

    Já antes de assumir, eu falei para ele que ele deveria continuar sendo Eduardo Suplicy e não secretário de Direitos Humanos de uma administração que não tem compromisso com os direitos humanos. Com certeza ele vai se desgastar, ele que vai se decepcionar porque ele não tem a possibilidade de dar respostas.

    O poder dele é limitado?

    Bastante limitado. Parece que ele é mais um enfeite nessa administração.

    Você acha que há ligação entre a recente ação na Cracolândia e a inauguração do Teatro da Porto Seguro?

    Sem dúvida, seria muito ingênuo não achar. A Porto Seguro comprou quase tudo que tem lá. Eles tem 8 mil funcionários naquela área. Eles que estão fazendo a reforma das praças e, uma semana antes de inaugurar o teatro, houve a operação.