Curta o Paulistana no Facebook



Quando falta Estado, a Igreja é que assume

Posted on
  • segunda-feira, 25 de maio de 2015
  • by
  • Redação
  • in
  • Marcadores:
  • Foto: Montagem/Lucio Bernardo Jr/Reprodução Facebook

    O país que tinha 10,45 milhões de pessoas em pobreza em 2013, segundo números do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), indica que o Estado não consegue dar conta de todas as suas responsabilidades. O auxílio a pessoas desamparadas e marginalizadas acaba sobrando para a Igreja, que faz o que pode na medida de seus limites, como os recentes acontecimentos têm mostrado.
    A prefeitura do Acre, governada pelo prefeito Tião Viana, do PT, enviou quase mil imigrantes haitianos na última semana a São Paulo, cidade esta governada por Fernando Haddad, da mesma sigla. Passar o problema para frente pareceu ser mais importante do que a comunhão partidária e o primeiro sequer avisou o segundo do montante de migrantes que estava a caminho. O resultado foi a superlotação da Casa do Migrante, vinculada à paróquia Nossa Senhora da Paz, na Região Sé, no bairro da Liberdade.
    "Você arruma emprego para 20 e logo chegam mais 50. O estresse é psicológico e físico. A equipe está sobrecarregada", disse o pároco e responsável pela entidade Paolo Parise à reportagem do jornal Folha de S.Paulo.
    O governo federal foi obrigado a suspender as viagens vindas do Acre para uma nova leva de haitianos não chegar. A Casa do Migrante, por meio de doações e voluntários, assume, deste modo, a demanda por ajuda que a cidade não consegue dar conta em suas instituições voltadas aos migrantes.
    O problema não é novo. Em 2013, uma leva de haitianos também lotou a paróquia, problema também resolvido com o que o padre chamou na época de "corrente de solidariedade." Paolo Parise aproveitou comício do Dia do Trabalhador para cobrar auxílio, na frente de centenas de trabalhadores, do então ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho.
    Outro caso de ajuda da Igreja aos não mais ajudados por ninguém é a constante repressão que o Paulistana tem noticiado aos moradores de rua na cidade de São Paulo.
    "A Pastoral não executa nenhum programa para resolver o problema. Quem tem de resolver é o poder público, a iniciativa privada, mas isso tem de ser resolvido pelos governantes", disse o vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua Julio Lancellotti em entrevista ao portal no começo desse mês.
    O editorial "Os moradores de rua também são filhos de Deus" é o com menos visualizações de páginas desse espaço desde que A Igreja Paulistana estreou há quase dois meses. Ao todo, cerca de 45 pessoas o leram contra as 530 que acessaram, por exemplo, o texto de opinião "A intolerância contra o clero brasileiro". Como disse Lancellotti na entrevista, os sem-teto "são pessoas que não tem a opinião pública, a mídia, grandes interesses do seu lado". O Paulistana segue como um dos poucos veículos que dão voz constante a estes irmãos e mostra que é a igreja, em todo este caso, quem alerta para casos como a repressão por parte da prefeitura aos moradores de rua da Cracolândia. Foi lá, por exemplo, que foi inaugurado teatro logo após a violenta expulsão dos sem-teto que se abrigavam na região, um indício de ligação entre o público e o privado.
    Se Parise diz que seu caminho de serviço lhe traz esgotamento psicológico, Lancellotti teve punido o seu perfil no Facebook, que foi tirado fora do ar e que era por onde fazia denúncias sobre a situação dos sem-teto ao longo dia. Era por meio deste que também fazia o acesso à sua página pública, que está agora paralisada. A administração da rede social no Brasil não deu maiores explicações ao Paulistana e ao sacerdote até o momento. Segundo informação de assessora de imprensa, pessoas poderiam ter denunciado o perfil do padre em situação que segue em caráter estranho.
    São ações de sacerdotes como Parise e Lancellotti que dão continuidade à Igreja descendente daquela organização primitiva na qual as primeiras comunidades de cristãos, a exemplo de Jesus, ajudavam os necessitados e faziam a partilha do pouco que tinham. A Igreja, claro, não abrange apenas o corpo do clero - este apenas parcela dela - e sim todo o Povo de Deus que dá apoio ao serviço dos padres e que também têm seu protagonismo e liderança em suas ações de evangelização e caridade.
    Em uma sociedade na qual pessoas ainda defendem a diminuição do poder do Estado com suas bandeiras de privatização ou críticas e campanhas indiretas - mesmo com a escancarada pobreza e desigualdade da qual os governos não dão conta, isto quando tem verdadeiramente esta intenção - é preciso seguir o exemplo do Papa Francisco, que diz que os bispos devem ir às periferias - e por que não os padres - assim como Parise e Lancellotti, e que os cristãos, em geral, não podem ser medrosos, pois não estariam assim entendendo a mensagem de Deus.
    Isto tudo significa possuir coragem para ajudar os necessitados frente à omissão e insuficiência do Estado, mas também para cobrar as responsabilidades deste, como tem sido feito graças a Deus, mas também aos seus filhos atentos, no caso dos migrantes e dos haitianos.