Curta o Paulistana no Facebook



Uma Igreja à esquerda

Posted on
  • segunda-feira, 11 de maio de 2015
  • by
  • Redação
  • in
  • Marcadores:
  • Foto: EPA

    O Papa Francisco se reuniu no último domingo (10), no Vaticano, com o presidente de Cuba Raúl Castro. O líder cubano elogiou a sabedoria do papa e disse que poderia voltar a ficar em comunhão com a Igreja Católica Romana por causa dos posicionamentos do pontífice romano. "Se o papa continuar a falar como ele fala, mais cedo ou mais tarde eu vou começar a rezar novamente e retornar à Igreja Católica, e eu não estou brincando", disse Castro a jornalistas após ter se encontrado também com o presidente da Itália Matteo Renzi. A visão que o presidente de Cuba tem do bispo de Roma consolida a análise de que a Igreja hoje, sob o atual papado, possui novo posicionamento.
    O Papa Francisco tem dado, desde que foi eleito, declarações de cunho progressista contrárias ao sistema capitalista. Como mostrou o editorial do Paulistana do último dia 20 de abril, Francisco critica as consequências culturais da economia de mercado como a cultura do individualismo e coloca os pobres no centro de suas preocupações assim como o faz a teologia da libertação, perseguida pelos dois últimos papas. Entretanto, as suas declarações não se resumem apenas às questões econômicas.
    Francisco também entra na questão de gênero quando diz, por exemplo, que o machismo domina a mulher desde os tempos de Adão. Por isso a face conservadora da Cúria Romana parece manifestar receio em seus bastidores de que o papa avance em temas como a homossexualidade ou em dogmas como a não ordenação de mulheres, algo que há quem diga que ser mudado seria um desejo antigo de Jorge Mario Bergoglio.
    A segunda parte do Sínodo da Família irá acontecer em outubro deste ano e Francisco defende a aprovação do maior acolhimento da Igreja aos homossexuais e a readmissão aos sacramentos dos casais de segunda união. Os bispos conservadores enxergam as mudanças como um caminho para novas aberturas. O episcopado africano, por exemplo, teme pelo maior acolhimento a divorciados em um continente com países onde a Igreja se opõe a cultura da poligamia. Francisco possui seus posicionamentos, mas busca unir a Igreja com a tomada de decisões democráticas. Claro, não se esquece como funciona a hierarquia clerical da igreja dos apóstolos. "O garantidor (da doutrina) é o Papa. As chaves, eu que tenho", disse no final da 1ª parte do sínodo no ano passado.
    As posições conciliadoras do papa resultam no debate sobre a real convicção que o bispo de Roma possui em suas declarações. Por este motivo tem sido chamado de "argentino populista" nos corredores da cúria, segundo a imprensa. Francisco poderia apenas buscar agradar a todos os setores da Igreja e uni-la após os conflitos por poder ocorridos durante o papado de Bento XVI, em meio aos escândalos de corrupção no Banco do Vaticano e de pedofilia no clero. Afinal, o mesmo papa que recebe hoje um transsexual no Vaticano foi o cardeal que se opôs publicamente ao governo argentino contra a aprovação do casamento gay pelo Congresso do país. Segundo o jornalista inglês Austen Ivereigh , autor do livro "O Grande Reformador", ao contrário do papa que emite opiniões até sobre atletas pegos no teste do doping, Bergoglio possuía o apelido de Monalisa quando arcebispo de Buenos Aires devido à sua quietude. Em entrevista ao jornal La Tercera, em abril, Ivereigh diz que há muitas diferenças entre o argentino antes e depois de se tornar papa, mas que não tem dúvidas de que o Bergoglio atual quer reformar a Igreja Católica.
    A Igreja hoje sob o papado de Francisco se configura como o que é chamado de Esquerda no espectro de ideias político e econômico. Para os católicos romanos, o papa é a maior referência de como um cristão deve agir. Por isso, as ideias de Francisco tendem a se espalhar por todo o clero e Povo de Deus. Assistimos no Brasil uma Conferência Episcopal que se coloca cada vez mais ao lado de bandeiras progressistas, como quando fica contra o ajuste fiscal do governo e o projeto de terceirização que tramita pelo Congresso. Assim como nos anos 80, na América Latina, foi popular para o clero se alinhar à Teologia da Libertação antes desta ser combatida pelo Vaticano, pode-se intensificar a tendência de o clero brasileiro voltar às raízes da opção preferencial dos pobres ou de apenas se alinhar com a atual administração da Santa Sé. O arcebispo de São Paulo Dom Odilo Scherer, por exemplo, outrora conhecido como tradicionalista, atualmente apoia os posicionamentos da CNBB e tem sido atacado por meio da velha acusação de apoio ao comunismo por defender uma reforma política contra o poder econômico.
    A parcela conservadora da Cúria Romana e da Igreja pelo mundo, em geral, por último, não irá deixar de se opor aos posicionamentos do papa. Mesmo protegido por sua popularidade, blogs na internet já o atacam e e-mails circulam desde o ano passado com alertas sobre a cautela que Francisco teria para evitar que seja assassinado como teria sido o Papa João Paulo I e como poderia talvez ter sido Bento XVI se não tivesse renunciado ao seu cargo em 2013. Esses seriam os motivos para o atual papa morar na Casa Santa Marta fora do Palácio Vaticano, por exemplo.
    Francisco pede para que os fiéis rezem por ele desde a sua eleição e busca seguir o seu caminho guiado pelo Espírito sem fragmentar a Igreja.
    Por isso é preciso que os cristãos não se esqueçam que, independente de posições e teologias, todos são irmãos e devem sempre estar em diálogo com respeito ao próximo.