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Dom Odilo aconselhou governo Alckmin a conter ocupação de escolas

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  • segunda-feira, 30 de novembro de 2015
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  • Chefe de gabinete disse em áudio que arcebispo sugeriu "guerra"; cardeal nega

    Dom Odilo ao lado do governador, em junho, ao receber condecoração. Foto: Divulgação/Alesp

    Por Arthur Gandini


    O arcebispo metropolitano de São Paulo Dom Odilo Scherer deu conselhos ao governo Alckmin de como enfrentar o movimento de ocupação de escolas no Estado de São Paulo. A afirmação foi feita pelo chefe de gabinete da Secretaria da Educação Fernando Padula em reunião no último domingo (29), conforme áudio obtido pelo coletivo de mídia Jornalistas Livres.

    "Eu e a professora Raquel estivemos com o Dom Odilo Scherer, nós estamos apelando para todo mundo", afirmou o assessor aos presentes em reunião realizada pela manhã em sala anexa do gabinete da secretaria, segundo o coletivo. "É impressionante a leitura do cardeal. O cardeal disse: 'mas isso é para desviar o foco de Brasília", declarou Padula imitando o sotaque alemão do cardeal.

    Em outro momento da gravação, o chefe de gabinete afirmou que a conversa com o religioso deveria permanecer em segredo. "Lógico que a gente não pode sair por aí falando que o cardeal falou isso, mas vocês vejam que a autoridade máxima da Igreja Católica consegue entender que o que tem do lado de lá é armação política", disse como se o arcebispo ocupasse o trono do Vaticano.

    Segundo o secretário, Dom Odilo teria dado também orientações estratégicas de "guerra". "Falou para a gente: 'O que vocês tem de fazer é informar, informar, informar, conversar, fazer a guerra da informação ao máximo possível', porque é (com) isso que você vai desmobilizando e criando as agendas positivas".

    Em um último momento da gravação que menciona o arcebispo, uma mulher não identificada afirmou que o cardeal fez represália ao posicionamento da Secretaria da Educação. "No meio desse pedaço, ele disse nesta hora: 'eu leio o que falam e vejo o que significa, não vejo resposta de vocês, vocês não respondem. Vocês precisam responder, eu não tenho visto a Secretaria de Educação responder'", relatou.

    Escute o momento em que Dom Odilo é citado na reunião, entre 10:32 e 12:15:

    Secretaria de Educação prepara “guerra” contra as escolas em l...
    PESSOAL! ATENÇÃO, ATENÇÃO! EXCLUSIVO!ESCOLAS EM LUTASecretaria de Educação prepara “guerra” contra as escolas em luta!Em reunião com 40 dirigentes de ensino, braço direito do secretário Herman anuncia que o decreto da “reorganização” sai na terça e lança estratégia para “isolar” e “desmoralizar” as escolas em luta, com o apoio da Polícia MilitarEscute abaixo o áudio da reunião. Por Laura Capriglione, especial para os Jornalistas Livres, às 14h de 29/11/2015Em reunião realizada agora há pouco, na antiga escola Normal Caetano de Campos, a primeira escola pública de São Paulo na era republicana, cerca de 40 dirigentes de ensino do Estado de São Paulo receberam instruções de Fernando Padula Novaes, chefe de gabinete do secretário Herman Jacobus Cornelis Voorwald, sobre como deverão agir a partir de amanhã para quebrar a resistência de alunos, professores e funcionários que estão em luta contra a reorganização escolar pretendida pelo governador Geraldo Alckmin.A reunião foi realizada em uma sala anexa ao próprio gabinete do secretário. Jornalistas Livres estavam lá e escutaram o chefe de gabinete anunciar para os dirigentes de ensino que o decreto da “reorganização sai na [próxima] terça-feira”. Segundo ele, “estava pronto na quinta passada (26/11) para o governador assinar”, mas pareceria que o governador não “tinha disposição para o diálogo”. A maioria na sala (todos “de confiança” do governo), suspirou de alívio, e Padula emendou: “Aí teremos o instrumento legal para a reorganização”.Trata-se de uma gravação esclarecedora, que merece ser ouvida em sua íntegra pelo que tem de revelador. Nela, o chefe de gabinete Padula repete inúmeras vezes que todos ali estão “em uma guerra”, que se trata de organizar “ações de guerra”, que “a gente vai brigar até o fim e vamos ganhar e vamos desmoralizar [quem está lutando contra a reorganização]”. Fala-se da estratégia de isolar as escolas em luta mais organizadas. Que o objetivo é mostrar que o “dialogômetro” do lado deles só aumenta, e que a radicalização está “do lado de lá”.Também importante foi o ponto em que o chefe de gabinete falou da estratégia de “consolidar” a reorganização. A idéia é ir realizando as transferências, normalmente, deixando “lá, no limite” aquela escola que estiver “invadida”. Segundo ele, o máximo que ocorrerá será que aquela escola “não começará as aulas como as demais”.A reunião mencionou também o papel de apoio que a Secretaria de Segurança Pública, do secretário Alexandre de Moraes, está tendo, fotografando as placas dos veículos estacionados nas proximidades das escolas, e identificando os seus proprietários. Com base nessas informações, a Secretaria de Educação pretende entrar com uma denúncia na Procuradoria Geral do Estado contra a Apeoesp.Padula contou como procurou o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, “A gente precisa procurar todo mundo, não é?”, dele recebendo a orientação para responder aos que se opõem à “reorganização”. “Vocês precisam responder”, teria dito dom Odilo ao chefe de gabinete do secretário Herman Jacobus Cornelis Voorwald. Dom Odilo teria afirmado ainda que “as ocupações nas escolas têm o objetivo de desviar o foco de Brasília”.Foi interessante notar que a mesma reunião que insistia em denunciar a presença de partidos e organizações radicais entre os meninos e meninas contou com o anúncio solene da presença de um militante do Movimento Ação Popular, ligado ao PSDB e presença frequente nas manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.
    Posted by Jornalistas Livres on Domingo, 29 de novembro de 2015


    Entenda

    Mais de 150 escolas no Estado de São Paulo estão ocupadas em protesto contra a reorganização das escolas prevista pelo governo. A mudança visa fazer com que todas as escolas ofereçam apenas um tipo de ciclo escolar e deve afetar a vida de cerca de um milhão de jovens. Alunos e professores alegam que ela pode resultar na demissão de docentes e fazer com que estudantes carentes tenham de estudar longe de suas casas, o que aumenta o custo com o transporte público. Parte das escolas fechadas não dará lugar a novos colégios.

    O chefe de gabinete da Secretaria da Educação Fernando Padula também fez declarações na reunião sobre a estratégia contra as ocupações. "Eventualmente perdemos algumas batalhas, mas temos que ganhar a guerra final. A radicalização está do lado de lá. A polícia teve uma coisa positiva que conseguiram. Em três visitas ontem, conseguiu tirar fotos de placas de carros nas ruas das de escolas ontem. A gente tem de desqualificar (o movimento)", disse.

    Segundo ele, ficará pronto na próxima terça-feira (3) o decreto que oficializa a reorganização das escolas pretendida pelo governo Alckmin. Ainda segundo o chefe de gabinete, o decreto deveria ter ficado pronto na quinta-feira (26), mas não havia "disposição para o diálogo" por parte do governador.

    A assessoria Secretaria da Educação do Governo do Estado não havia comentado as falas atribuídas a Dom Odilo até o momento da publicação desta reportagem.

    Já o arcebispo de São Paulo afirmou apenas, por meio de nota, que "lamenta que seu nome esteja sendo usado indevidamente para justificar possível emprego de violência contra movimentos estudantis". Assessor de imprensa da arquidiocese também disse ao Paulistana que o cardeal "não confirma" as declarações de Fernando Padula.

    Leia a nota da arquidiocese na íntegra:

    "O Cardeal Odilo Pedro Scherer lamenta que seu nome esteja sendo usado indevidamente para justificar possível emprego de violência contra movimentos estudantis que ocupam escolas estaduais em São Paulo.

    Confirmamos que, procurado pela Secretaria Estadual de Educação, o arcebispo sugeriu que o governo explique a proposta de readequação do ensino no Estado e esclareça a opinião pública".